Tomb Raider no PS1: como Lara Croft virou ícone cultural no Brasil antes de qualquer filme
Tomb Raider no PS1:
como Lara Croft virou
icone cultural no Brasil
Antes de qualquer filme, antes da Netflix, antes da franquia bilionaria: uma protagonista poligonal conquistou o Brasil inteiro num PlayStation emprestado de locadora
Em 1996, o Brasil ainda estava digerindo o PlayStation. Importado, caro, objeto de desejo que a maioria conhecia pelas vitrines das Casas Bahia ou pelos cartazes coloridos de locadora. Foi nesse contexto que Lara Croft apareceu na tela de uma televisao de tubo e mudou a relacao de muita gente com os videogames.
Ela nao era o Mario. Nao era o Sonic. Era uma arqueologa britanica com duas pistolas, uma tranca de cabelo e uma postura que transmitia algo novo: competencia silenciosa. Nao precisava de resgate. Ela resgatava artefatos. E quem segurava o controle embarcava numa aventura diferente de tudo que havia chegado ao Brasil ate aquele momento.
Este artigo reconstroi como Tomb Raider virou fenomeno cultural no Brasil, muito antes do filme de 2001 com Angelina Jolie, muito antes da internet democratizar os spoilers, e num pais onde o preco do jogo equivalia a quase dois salarios minimos da epoca.
Tomb Raider PS1
na franquia ate 2001
nas lojas em 1997
brasileiro em 1997
da franquia original
com Angelina Jolie
O Brasil de 1996 e o PlayStation
Para entender o impacto de Tomb Raider no Brasil, e preciso entender o cenario. O PlayStation chegou oficialmente ao pais em 1996 pela Playtronic, a joint venture da Nintendo que curiosamente nao lidava com PlayStation, deixando o console da Sony em territorio de importacao e cinza durante os primeiros anos. Quem tinha um PlayStation no Brasil de 1996 ou 1997 ou havia importado, ou tinha um parente que trouxe dos Estados Unidos, ou frequentava uma locadora que apostou no novo hardware.
A Playtronic, a Sony e o mercado cinza
Ao contrario do Super Nintendo e do Mega Drive, que tiveram distribuidoras nacionais consolidadas (Playtronic e TecToy respectivamente), o PlayStation original chegou ao Brasil principalmente via importacao. A Sony do Brasil so estruturou a distribuicao formal do PS1 de maneira mais robusta a partir de 1997-1998, e os precos refletiam isso: um console importado custava entre R$ 600 e R$ 800, quando o salario minimo era R$ 112 em 1996.
Esse contexto faz o sucesso de Tomb Raider no Brasil ser ainda mais impressionante. O jogo se tornou fenomeno numa plataforma que pouquissima gente podia comprar diretamente, mas que estava nas locadoras de todo o pais.
A Cronologia de Lara no Brasil
A Franquia no PS1
O original. Ruinas do Peru, Grecia, Egito e Atlantida. A apresentacao de Lara Croft para o mundo e para o Brasil via locadoras e importados. Ainda hoje considerado um dos jogos mais atmosfericos do PS1.
O salto qualitativo que consolidou Lara como icone. Mais ambientes, veiculos pilotaveis e uma sequencia de abertura na Muralha da China que virou lenda nas locadoras brasileiras. Considerado por muitos o auge da era PS1.
Os 5 Jogos do PS1 — O que cada um representa
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Porque Lara Croft tocou o Brasil de um jeito diferente
Havia algo no timing de Tomb Raider que fez sentido especifico no Brasil. O pais vivia a estabilizacao do Plano Real, a classe media voltava a consumir, e a televisao aberta ainda dominava o entretenimento. Nesse contexto, os videogames ocupavam um espaco de aspiracao e novidade que ia alem do simples divertimento.
A protagonista feminina num mercado dominado por heróis masculinos
Em 1996, os protagonistas de games eram esmagadoramente masculinos: Mario, Sonic, Crash Bandicoot, Street Fighter, Mortal Kombat. Lara Croft chegou com um visual que a midia da epoca explorou intensamente, mas o que ficou para os jogadores brasileiros foi outra coisa: ela era competente, autonoma e nunca precisava de resgate.
Para uma geracao inteira de brasileiras que cresceu jogando PS1, Lara foi um modelo de protagonismo que os games raramente ofereciam. Mas tambem para os meninos, ela representava algo: a ideia de que um personagem feminino podia ser o centro absoluto de uma aventura de acao sem concessoes.
A gente alugava na locadora e ficava a semana inteira tentando passar a primeira fase. O PS1 era da locadora, o controle era da locadora. So a vontade de jogar era nossa.
Memoria coletiva de uma geracao — Brasil, 1997Quanto custava ser fas de Tomb Raider no Brasil
Os numeros sao reveladores. Ser fas da franquia no Brasil dos anos 90 era um privilegio financeiro real, o que tornava as locadoras ainda mais essenciais como via de acesso democratico.
Dicas para o Colecionador
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Verifique a serie do disco: versoes nacionais brasileiras de Tomb Raider II e III sao as mais raras de encontrar. A maioria dos exemplares no mercado brasileiro sao europeus (PAL) ou americanos (NTSC-U). A indicacao de regiao fica impressa no disco e na caixa.
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CIB vale muito mais: um Tomb Raider II com caixa original, manual e disco em bom estado pode valer de 2 a 3 vezes o preco do loose. O manual de TR2 em portugues e raridissimo e por si so ja e um item de colecao.
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Disco espelhado e fundamental: jogos PS1 arranhados muitas vezes rodam com travamentos, especialmente Tomb Raider III que e notoriamente sensivel. Use um leitor de DVD externo para testar antes de comprar quando possivel.
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Edicoes especiais europeias: versoes PAL do TR1 e TR2 em excelente estado sao relativamente acessiveis no Brasil. Sao funcionais em PS1 com mod chip ou em PS2 com adaptador de regiao, e tem capas e manuais em varios idiomas europeus.
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A versao de Saturno existe: Tomb Raider 1 e 2 foram lancados no Sega Saturn. Sao muito mais raros e caros, mas para colecionadores de Saturno sao pecas de destaque. Fique atento a catalogos especializados de import japones.
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Copies sao abundantes: Tomb Raider foi um dos titulos mais pirateados do PS1 no Brasil. Copias nao originais tem plastico de qualidade inferior, labels impressas e ausencia de hologramas. Compare sempre com referencias fotograficas de originais antes de comprar.
Quem estava la
Meu pai trabalhava num banco e em 1997 ganhou um bonus. A gente foi na loja de eletronicos e ele perguntou o que eu queria. Pedi Tomb Raider II. Ele olhou pro vendedor, o vendedor confirmou que era um bom jogo, e ele pagou. Nunca mais esqueci. Joguei por seis meses aquele CD ate riscar.
Renato M. — Belo Horizonte, MGEu era a unica menina no grupo de amigos que jogava videogame. E quando Lara Croft apareceu, de repente todo mundo achou normal ter uma protagonista mulher num jogo serio de acao. Foi pequeno, mas foi real. Essa personagem mudou alguma coisa no imaginario daquela turma.
Carla T. — Sao Paulo, SPA locadora perto de casa tinha um PS1 pra alugar junto com o jogo. Era R$12 a diaria do console mais R$5 do jogo. A gente juntava o dinheiro com tres amigos, alugava num sabado, jogava ate de madrugada e devolvia no domingo. Tomb Raider II foi a melhor noite de jogos da minha adolescencia.
Fabio S. — Porto Alegre, RSO arquivo do retrogamer brasileiro esta aqui
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