Tomb Raider no PS1: como Lara Croft virou ícone cultural no Brasil antes de qualquer filme

Tomb Raider no PS1: como Lara Croft virou ícone cultural no Brasil — CheckPointed
Historia e Nostalgia

Tomb Raider no PS1:
como Lara Croft virou
icone cultural no Brasil

Antes de qualquer filme, antes da Netflix, antes da franquia bilionaria: uma protagonista poligonal conquistou o Brasil inteiro num PlayStation emprestado de locadora

Atualizado 2026 12 min de leitura Historia e Nostalgia

Em 1996, o Brasil ainda estava digerindo o PlayStation. Importado, caro, objeto de desejo que a maioria conhecia pelas vitrines das Casas Bahia ou pelos cartazes coloridos de locadora. Foi nesse contexto que Lara Croft apareceu na tela de uma televisao de tubo e mudou a relacao de muita gente com os videogames.

Ela nao era o Mario. Nao era o Sonic. Era uma arqueologa britanica com duas pistolas, uma tranca de cabelo e uma postura que transmitia algo novo: competencia silenciosa. Nao precisava de resgate. Ela resgatava artefatos. E quem segurava o controle embarcava numa aventura diferente de tudo que havia chegado ao Brasil ate aquele momento.

Este artigo reconstroi como Tomb Raider virou fenomeno cultural no Brasil, muito antes do filme de 2001 com Angelina Jolie, muito antes da internet democratizar os spoilers, e num pais onde o preco do jogo equivalia a quase dois salarios minimos da epoca.

O CheckPointed e o ponto de salvamento do retrogamer brasileiro. Se voce cresceu com PS1 e locadora, este e o seu lugar.

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1996
Lancamento mundial
Tomb Raider PS1
7mi
Copias vendidas
na franquia ate 2001
R$130
Preco do jogo
nas lojas em 1997
R$120
Salario minimo
brasileiro em 1997
5
Jogos no PS1
da franquia original
2001
Estreia do filme
com Angelina Jolie

O Brasil de 1996 e o PlayStation

Para entender o impacto de Tomb Raider no Brasil, e preciso entender o cenario. O PlayStation chegou oficialmente ao pais em 1996 pela Playtronic, a joint venture da Nintendo que curiosamente nao lidava com PlayStation, deixando o console da Sony em territorio de importacao e cinza durante os primeiros anos. Quem tinha um PlayStation no Brasil de 1996 ou 1997 ou havia importado, ou tinha um parente que trouxe dos Estados Unidos, ou frequentava uma locadora que apostou no novo hardware.

A Playtronic, a Sony e o mercado cinza

Ao contrario do Super Nintendo e do Mega Drive, que tiveram distribuidoras nacionais consolidadas (Playtronic e TecToy respectivamente), o PlayStation original chegou ao Brasil principalmente via importacao. A Sony do Brasil so estruturou a distribuicao formal do PS1 de maneira mais robusta a partir de 1997-1998, e os precos refletiam isso: um console importado custava entre R$ 600 e R$ 800, quando o salario minimo era R$ 112 em 1996.

Esse contexto faz o sucesso de Tomb Raider no Brasil ser ainda mais impressionante. O jogo se tornou fenomeno numa plataforma que pouquissima gente podia comprar diretamente, mas que estava nas locadoras de todo o pais.

A Cronologia de Lara no Brasil

1996
Tomb Raider chega ao mundo e ao Brasil via importados
Lancado em outubro de 1996 pela Eidos Interactive, o jogo chegou ao Brasil ainda em 96 por meio de importadoras e lojas especializadas no eixo Sao Paulo-Rio. O preco era proibitivo, mas as locadoras que apostaram no titulo rapidamente relataram filas de espera para alugar.
Lancamento
1997
Tomb Raider II e a explosao nas locadoras brasileiras
O segundo jogo, lancado em novembro de 1997, foi o momento em que Lara Croft entrou de vez na cultura pop nacional. As revistas gamers como Acao Games, GamePower e SuperGamePower dedicaram capas e materias extensas. A Playtronic ainda nao distribuia o titulo, mas a demanda era inegavel.
Boom cultural
1998
Lara Croft vira personagem na midia brasileira
Em 1998, Lara Croft apareceu em programas de televisao brasileiros, reportagens de jornal e ate materias de revistas femininas discutindo o impacto de uma protagonista feminina forte. Foi um dos primeiros momentos em que um videogame virou pauta de midia generalista no Brasil de forma positiva.
Midia mainstream
1999-2000
Tomb Raider III e The Last Revelation chegam em sequencia
Com o PlayStation mais acessivel no Brasil e os preco caindo gradualmente, a franquia ganhou ainda mais alcance. Tomb Raider III e o quarto jogo foram lancados em rapida sucessao, mantendo a protagonista como referencia absoluta de aventura no PS1 nacional.
Consolidacao
2001
Angelina Jolie nas telas e a franquia bate recorde de publico
O filme Lara Croft: Tomb Raider estreiou em junho de 2001 no Brasil e foi um sucesso de bilheteria, arrancando nostalgicos dos jogos e novo publico. Para quem ja tinha jogado o PS1 anos antes, era quase uma validacao cultural: Lara finalmente na tela grande.
Cinema

A Franquia no PS1

Capa de Tomb Raider 1 para PS1
Tomb Raider (1996)

O original. Ruinas do Peru, Grecia, Egito e Atlantida. A apresentacao de Lara Croft para o mundo e para o Brasil via locadoras e importados. Ainda hoje considerado um dos jogos mais atmosfericos do PS1.

Capa de Tomb Raider 2 para PS1
Tomb Raider II (1997)

O salto qualitativo que consolidou Lara como icone. Mais ambientes, veiculos pilotaveis e uma sequencia de abertura na Muralha da China que virou lenda nas locadoras brasileiras. Considerado por muitos o auge da era PS1.

Os 5 Jogos do PS1 — O que cada um representa

Tomb Raider 1
01 de 05
Tomb Raider
1996 · Eidos Interactive
O ponto zero. Lara Croft surge como contratada de Jacqueline Natla para buscar o Scion de Atlantida. O jogo revolucionou a jogabilidade 3D e apresentou ao Brasil uma protagonista feminina que nao precisava ser salva por ninguem. O nivel da Mansao Croft virou escola de tutorial antes do genero existir formalmente.
Icone 3D Pioneiro Locadoras
src=”1997 · Core Design ” alt=”Tomb Raider 2″ onerror=”this.style.display=’none’; this.nextElementSibling.style.display=’flex’;” >
02 de 05
Tomb Raider II
1997 · Core Design
O mais amado da era PS1. A busca pelo Punhal de Xian leva Lara pela Muralha da China, Veneza, um navio afundado e a propria Mansao Croft invadida. Foi aqui que o Brasil virou fas definitivamente: as revistas gamers da epoca colocaram TR2 como jogo do ano em 1997. A sensacao de tamanho era inigualavel.
Jogo do Ano 1997 Raro CIB
Tomb Raider 3
03 de 05
Tomb Raider III
1998 · Core Design
O mais dificil e controverso da trilogia original. Com fases na India, Nevada, Pacifico Sul e Londres, TR3 apostou numa estrutura nao-linear que confundiu e encantou em partes iguais. Muitos brasileiros que jogaram relatam que nunca terminaram sem um guia impresso da revista. Isso virou memoria afetiva propria.
Dificuldade Alta Nao-linear
04 de 05
Tomb Raider: The Last Revelation
1999 · Core Design
O Egito como pano de fundo de uma aventura que tentou ser mais coesa e narrativa. A historia da jovem Lara e a maldicao de Seth surpreendeu com um final ousado que deixou fasmas no Brasil inteiro. Vendeu bem, chegou mais tarde ao mercado nacional, e tecnicamente espremeu o PS1 ate o limite.
Egito Final Surpresa
Tomb Raider Chronicles
05 de 05
Tomb Raider: Chronicles
2000 · Core Design
A despedida do PS1. Estruturado como flashbacks contados por amigos de Lara apos a sua “morte” em TR4, Chronicles funcionou como uma compilacao de aventuras de estilos distintos. Foi lancado junto com o PS2 e acabou sendo ofuscado pelo novo hardware, mas para os fas do PS1 foi uma conclusao agridoce e querida.
Despedida PS1 Flashbacks

Porque Lara Croft tocou o Brasil de um jeito diferente

Havia algo no timing de Tomb Raider que fez sentido especifico no Brasil. O pais vivia a estabilizacao do Plano Real, a classe media voltava a consumir, e a televisao aberta ainda dominava o entretenimento. Nesse contexto, os videogames ocupavam um espaco de aspiracao e novidade que ia alem do simples divertimento.

A protagonista feminina num mercado dominado por heróis masculinos

Em 1996, os protagonistas de games eram esmagadoramente masculinos: Mario, Sonic, Crash Bandicoot, Street Fighter, Mortal Kombat. Lara Croft chegou com um visual que a midia da epoca explorou intensamente, mas o que ficou para os jogadores brasileiros foi outra coisa: ela era competente, autonoma e nunca precisava de resgate.

Para uma geracao inteira de brasileiras que cresceu jogando PS1, Lara foi um modelo de protagonismo que os games raramente ofereciam. Mas tambem para os meninos, ela representava algo: a ideia de que um personagem feminino podia ser o centro absoluto de uma aventura de acao sem concessoes.

A gente alugava na locadora e ficava a semana inteira tentando passar a primeira fase. O PS1 era da locadora, o controle era da locadora. So a vontade de jogar era nossa.

Memoria coletiva de uma geracao — Brasil, 1997

Quanto custava ser fas de Tomb Raider no Brasil

Os numeros sao reveladores. Ser fas da franquia no Brasil dos anos 90 era um privilegio financeiro real, o que tornava as locadoras ainda mais essenciais como via de acesso democratico.

Tomb Raider 1 (1996/97)
Preco nas lojas ~R$ 130
Salario minimo 1997 R$ 120
Aluguel na locadora R$ 3 a R$ 5
Tomb Raider II (1997/98)
Preco nas lojas ~R$ 140
Salario minimo 1998 R$ 130
Aluguel na locadora R$ 3 a R$ 6
Valor atual no mercado CIB
TR1 completo R$ 80 a R$ 150
TR2 completo R$ 120 a R$ 220
TR3 completo R$ 90 a R$ 160
PlayStation original na epoca
Console importado 1996 R$ 600-800
Console via mercado cinza R$ 400-600
Diaria de locadora PS1 R$ 8 a R$ 15

Dicas para o Colecionador

  • 🔍
    Verifique a serie do disco: versoes nacionais brasileiras de Tomb Raider II e III sao as mais raras de encontrar. A maioria dos exemplares no mercado brasileiro sao europeus (PAL) ou americanos (NTSC-U). A indicacao de regiao fica impressa no disco e na caixa.
  • 📦
    CIB vale muito mais: um Tomb Raider II com caixa original, manual e disco em bom estado pode valer de 2 a 3 vezes o preco do loose. O manual de TR2 em portugues e raridissimo e por si so ja e um item de colecao.
  • 💿
    Disco espelhado e fundamental: jogos PS1 arranhados muitas vezes rodam com travamentos, especialmente Tomb Raider III que e notoriamente sensivel. Use um leitor de DVD externo para testar antes de comprar quando possivel.
  • 🏷️
    Edicoes especiais europeias: versoes PAL do TR1 e TR2 em excelente estado sao relativamente acessiveis no Brasil. Sao funcionais em PS1 com mod chip ou em PS2 com adaptador de regiao, e tem capas e manuais em varios idiomas europeus.
  • 📸
    A versao de Saturno existe: Tomb Raider 1 e 2 foram lancados no Sega Saturn. Sao muito mais raros e caros, mas para colecionadores de Saturno sao pecas de destaque. Fique atento a catalogos especializados de import japones.
  • ⚠️
    Copies sao abundantes: Tomb Raider foi um dos titulos mais pirateados do PS1 no Brasil. Copias nao originais tem plastico de qualidade inferior, labels impressas e ausencia de hologramas. Compare sempre com referencias fotograficas de originais antes de comprar.

Quem estava la

RM

Meu pai trabalhava num banco e em 1997 ganhou um bonus. A gente foi na loja de eletronicos e ele perguntou o que eu queria. Pedi Tomb Raider II. Ele olhou pro vendedor, o vendedor confirmou que era um bom jogo, e ele pagou. Nunca mais esqueci. Joguei por seis meses aquele CD ate riscar.

Renato M. — Belo Horizonte, MG
CT

Eu era a unica menina no grupo de amigos que jogava videogame. E quando Lara Croft apareceu, de repente todo mundo achou normal ter uma protagonista mulher num jogo serio de acao. Foi pequeno, mas foi real. Essa personagem mudou alguma coisa no imaginario daquela turma.

Carla T. — Sao Paulo, SP
FS

A locadora perto de casa tinha um PS1 pra alugar junto com o jogo. Era R$12 a diaria do console mais R$5 do jogo. A gente juntava o dinheiro com tres amigos, alugava num sabado, jogava ate de madrugada e devolvia no domingo. Tomb Raider II foi a melhor noite de jogos da minha adolescencia.

Fabio S. — Porto Alegre, RS

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CheckPointed — O ponto de salvamento do retrogamer brasileiro

Atualizado 2026. Conteudo editorial independente. Paleta: Verde-musgo e Dourado arqueologico.

Apaixonado por videogames clássicos desde os anos 90, quando passou horas explorando mundos em consoles como Super Nintendo e Mega Drive. Hoje, aos 43 anos, ele se dedica a escrever sobre o universo dos games retrô, compartilhando análises, curiosidades e histórias que marcaram gerações. Com olhar crítico e linguagem acessível, Garro transforma nostalgia em conteúdo de valor, ajudando novos jogadores a descobrir clássicos e veteranos a reviver grandes momentos.

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