Mortal Kombat no Brasil: sangue, fatalities e a polêmica que fez toda mãe de adolescente entrar em pânico nos anos 90
Mortal Kombat no Brasil:
sangue, fatalities e o panico
que tomou conta das maes dos anos 90
Como um jogo de luta americano virou o centro de um debate moral, virou manchete de jornal e ainda assim vendeu horrores no Brasil inteiro.
Em 1992, dois programadores da Midway Games criaram um jogo de luta diferente de tudo que existia. Nao era so mais rapido ou mais bonito que os concorrentes. Era deliberadamente provoc ador. Tinha sangue de verdade. Tinha decapitacoes. Tinha uma jogadora de lingerie que arrancava o coracao do adversario com as proprias maos. E chegou ao Brasil com forca total.
Aqui, o impacto foi amplificado por um contexto muito especifico: o Brasil dos anos 90 vivia a explosao das locadoras de videogame, o boom do mercado informal de cartuchos e a paranoia genuina de pais e autoridades sobre o que os filhos estavam consumindo nas telas. Mortal Kombat caiu nesse caldeiro como uma tocha num deposito de gasolina.
Esse artigo reconstroi toda essa historia: de onde veio o jogo, como chegou aqui, quais versoes os brasileiros jogaram (e como eram diferentes umas das outras), o debate na midia nacional e o legado que permanece ate hoje para qualquer pessoa que passou os anos 90 na frente de um videogame.
A linha do tempo: do arcade ao seu quarto
O arcade que chocou os Estados Unidos
Mortal Kombat chega nas maquinas de fliperama dos EUA criado por Ed Boon e John Tobias na Midway. O jogo usa digitalizacao de atores reais, o que da uma aparencia fotografica estranhamente realista para a epoca. O sangue vermelho brotando dos personagens, combinado com os Fatalities, causa reacao imediata da imprensa americana. Nunca tinha existido nada assim acessivel ao publico geral em sala de arcade.
O dia mais lucrativo da historia do videogame ate entao
Em 13 de setembro de 1993, data batizada de “Mortal Monday”, o jogo e lancado simultaneamente para Mega Drive (Sega) e Super Nintendo. So nos EUA, gera mais de 50 milhoes de dolares em um unico dia de vendas. A versao Mega Drive mantem o sangue e os Fatalities completos mediante um codigo de ativacao (A, B, A, C, A, B, B). A versao Super Nintendo tem o sangue removido pela Nintendo, substituido por suor cinza. No Brasil, ambas as versoes chegam rapidamente.
O Congresso Americano entra na historia
Senadores americanos como Joseph Lieberman convocam audiencias publicas sobre violencia em videogames, usando Mortal Kombat e Night Trap como exemplos centrais. O resultado direto e a criacao do ESRB (Entertainment Software Rating Board) em 1994, o sistema de classificacao etaria que existe ate hoje. O debate vira manchete internacional e chega nos jornais brasileiros, alimentando a preocupacao local.
Mortal Kombat toma as locadoras do Brasil
As locadoras de videogame viviam seu momento de ouro no Brasil, e Mortal Kombat vira item obrigatorio nas prateleiras. O jogo circula tanto na versao original importada quanto em copias nao licenciadas. A Tec Toy, distribuidora oficial da Sega no Brasil, comercializa a versao Mega Drive legalmente. O cartucho original chega a custar em torno de R$ 89 a R$ 110 em valores da epoca, equivalendo a mais de 40% do salario minimo de Cr$ 15.021 (equivalente a pouco mais de dois salarios minimos em varios estados). Para a maioria das familias, a alternativa era alugar.
Mortal Kombat II: o sangue agora e padrao em todas as versoes
A sequencia chega nas lojas e a Sega muda de postura: o sangue fica ligado por padrao, sem necessidade de codigo. A versao Super Nintendo tambem melhora em relacao a primeira, embora ainda mais contida que o Mega Drive. No Brasil, o Mortal Kombat II aprofunda a presenca da franquia, desta vez com a versao para Game Boy tambem circulando nas maos dos adolescentes.
O filme e a explosao cultural definitiva
O longa-metragem de Paul W. S. Anderson estreia nos cinemas brasileiros com classificacao indicativa de 14 anos e arrasa nas bilheterias. A trilha sonora, estrelada pela faixa tematica de Immortal com a voz marcante “MORTAL KOMBAT”, vira referencia cultural imediata. No Brasil, o filme passa em cinemas de todo o pais e a franquia atinge o pico de visibilidade cultural. A palavra “fatality” entra no vocabulario cotidiano de quem tinha entre 10 e 20 anos naquele ano.
Mortal Kombat Trilogy e a chegada ao PlayStation
Com o PlayStation chegando ao Brasil pela Playtronic, a franquia migra para a nova geracao. A Trilogy reune personagens dos tres primeiros jogos numa pancadaria monumental. No Brasil, o titulo circula tanto em versao original quanto em copias nao licenciadas, que dominam boa parte do mercado informal de Sao Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.
Cada versao era um jogo diferente
Uma das coisas mais fascinantes do Mortal Kombat original e que, dependendo do console que voce tinha em casa, o jogo era literalmente diferente. Nao so graficamente: as regras de censura, os codigos, o sangue, os Fatalities, tudo variava. Para o brasileiro que conheceu o jogo na locadora e depois comprou o cartucho em casa, essa discrepancia era desorientante.
Arcade (Midway)
A versao original, sem censura de nenhum tipo. Sangue abundante, Fatalities completos, Shang Tsung comendo a alma dos adversarios. Era o benchmark contra o qual todas as outras versoes eram medidas. No Brasil, maquinas de arcade com o jogo apareceram em algumas cidades maiores, mas a experiencia era majoritariamente domestica.
Versao completaMega Drive (Sega / TecToy)
A versao domestica mais fiel ao arcade. Com o codigo A, B, A, C, A, B, B no menu, o sangue e os Fatalities eram liberados integralmente. Sem o codigo, havia “suor” no lugar do sangue. A TecToy distribuiu oficialmente no Brasil, tornando essa a versao mais acessivel para quem tinha o console. Graficamente inferior ao arcade, mas fielissima no espirito.
Com codigo: completaSuper Nintendo (Nintendo)
A versao mais controversa. A Nintendo aplicou censura pesada: sangue substituido por suor cinza, Fatalities alterados (Kano nao arrancava o coracao, Liu Kang nao decapitava). O Reptile, personagem secreto do arcade, foi removido. Na epoca, a versao SNES foi alvo de chacota entre os donos de Mega Drive. Tecnicamente era mais colorida, mas perdia o ponto central do jogo.
Fortemente censuradaGame Boy
Uma conquista tecnica bizarra: Mortal Kombat no Game Boy, numa tela monocromatica minuscula. A versao sacrifica quase tudo exceto a jogabilidade basica. Sem sangue, Fatalities simplificados, graficos minusculos. Mas era Mortal Kombat na palma da mao, em 1993. Circulou bastante nas maos dos estudantes brasileiros que passavam o jogo na escola enquanto a professora nao olhava.
Versao de bolsoGame Gear (Sega)
Versao portatil da Sega, superior ao Game Boy em recursos graficos por ter tela colorida, mas com base de usuarios muito menor no Brasil. Rara, vira item de colecao hoje em dia. Preserva o espiraco do jogo melhor que o Game Boy, mas com limitacoes proprias do hardware.
Rara no BrasilPC (DOS)
Versao para computador pessoal circulou muito no Brasil em disquetes copiados. O mercado de software pirata para PC era gigantesco na epoca, e Mortal Kombat aparecia frequentemente em bancas de mercado e feiras de informatica. Graficamente decente para a epoca, rodava em 386 e 486. Muitos brasileiros que nao tinham console conheceram o jogo primeiro aqui.
Popular em copiaOs dois lados da guerra dos consoles
A batalha Mega Drive vs. Super Nintendo ganhou um capitulo especial com Mortal Kombat. A diferenca de tratamento dado pelas duas empresas ao mesmo jogo virou argumento de patio de escola por meses a fio.
Mega Drive: o lado sombrio liberado
A Sega apostou na liberdade criativa como diferencial de marketing. O slogan nao oficial era simples: no Mega Drive, voce podia jogar o jogo de verdade. Com o codigo ativado, era sangue, ossos e Fatalities completos, igual ao arcade. A TecToy nunca tentou barrar a versao, e o produto foi vendido normalmente em lojas.
Super Nintendo: a versao do suor cinza
A Nintendo do Brasil, assim como a matriz, manteve a politica de conteudo familiar para o SNES. O resultado foi uma versao graficamente mais rica em cores e detalhes tecnicos, mas esvaziada do elemento que tornava o jogo unico. Os proprietarios de SNES defendiam a versao com unhas e dentes, mas no patio de escola a piada era sempre a mesma: “o seu jogo soa suor.”
Minha mae viu a Sindel arrancando a cabeca do Kung Lao na tela. Ficou parada uns dez segundos em silencio. Depois virou e disse: “Isso e proibido.” Ai eu desliguei o videogame. No dia seguinte ela ja tinha esquecido e eu continuei jogando.
Relato tipico de quem tinha 13 anos em 1995
O que o debate moral escondia: a hipocrisia das classificacoes
O panico moral em torno de Mortal Kombat no Brasil seguiu o roteiro americano, mas com um elemento extra: aqui, o sistema de classificacao etaria para jogos era inexistente ou completamente ignorado. O jogo chegava nas maos de criancas de 8 anos pela locadora sem nenhum filtro, ja que os atendentes raramente pediam documentos ou verificavam a idade de quem alugava.
Ao mesmo tempo, o Brasil dos anos 90 era um pais onde violencia real nos noticiarios era rotineira, e o telejornal das 20h mostrava cenas graficas sem moderacao. Havia algo de absurdo em uma sociedade que se escandalizava com um personagem pixelado arrancando um coracao enquanto vivia com indice de homicidios entre os maiores do mundo.
O que Mortal Kombat realmente provocou, em retrospecto, foi uma conversa necessaria sobre responsabilidade parental, sobre o papel das empresas no desenvolvimento de conteudo para criancas e sobre a necessidade de classificacao de midia. O ESRB americano foi o resultado direto desse debate. No Brasil, a discussao demorou bem mais para se institucionalizar.
Dicas para o colecionador
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Versao Mega Drive da TecToy tem selo brasileiro
O cartucho original distribuido pela TecToy no Brasil tem o logo da distribuidora na caixa e no manual em portugues. Cartuchos sem esse selo sao importados ou copias. Para autenticidade, busque a versao com manual nacional.
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Caixa e manual multiplicam o valor por 3 a 5 vezes
Um cartucho Mega Drive de MK1 solto vale entre R$ 60 e R$ 120 hoje dependendo do estado. Com caixa e manual originais TecToy, o valor sobe facilmente para R$ 300 a R$ 500. O manual brasileiro e particularmente raro.
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Atencao a copia de cartuchos: o mercado era imenso
Copias de Mortal Kombat para Mega Drive eram produzidas em larga escala no Brasil nos anos 90. A diferenca esta no adesivo da etiqueta (impressao de menor qualidade, cores desbotadas) e no encaixe do cartucho (plastico mais fino). Verifique o PCB interno se tiver duvidas.
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Versao Game Boy e a mais rara para colecionar
Poucos colecionadores se dedicam a versao Game Boy, o que mantem o preco baixo, mas a raridade da caixa original e genuina. Um Game Boy MK1 com caixa e manual pode ser encontrado por R$ 150 a R$ 250 em bom estado, uma pechincha considerando a raridade.
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A versao SNES censurada tem demanda crescente de colecionadores
Ironicamente, a versao mais criticada na epoca hoje tem colecionadores dedicados exatamente por ser um artefato cultural unico: um jogo que chegou incompleto por decisao corporativa. Com caixa e manual em bom estado vale de R$ 200 a R$ 400.
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A trilha sonora do filme e patrimonio cultural
O CD da trilha sonora do filme de 1995 ainda e encontrado em sebos brasileiros por R$ 15 a R$ 40. Para quem coleciona memoria afetiva dos anos 90, e um item barato e poderoso. Artistas como KMFDM, Fear Factory e a versao de Immortal estao nele.
Quem viveu conta
Meu pai comprou o Mega Drive pra mim no Natal de 1993. O primeiro jogo que eu pedi foi Mortal Kombat. Ele nem sabia o que era. Quando descobriu o que o jogo era, ficou nervoso, mas nunca tirou de mim. Ate hoje ele brinca que “criou um monstro”. Tenho o cartucho original ate hoje.
Na locadora perto de casa, o dono colou um aviso escrito a mao na caixa do Mortal Kombat: “Proibido para menores de 14 anos”. Mas todo mundo alugava. A gente fingia que estava alugando pra um irmaozao mais velho. O dono sabia, mas fechava o olho. Era 1994, as coisas funcionavam assim.
Lembro de ver a reportagem do Fantastisco sobre violencia em videogames. Eles mostraram o Mortal Kombat como se fosse coisa do demonio. No dia seguinte eu fui a locadora e aluguei o jogo pela primeira vez so de curiosidade. A reportagem serviu de propaganda gratuita pra Midway no Brasil inteiro.
O LEGADO NAO MORRE
Mortal Kombat nao foi so um jogo. Foi um divisor de aguas na historia da industria e na memoria afetiva de uma geracao inteira de brasileiros. Salva esse artigo e manda pra quem precisa lembrar.
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