Suikoden II no PS1: o RPG mais caro do console e por que ele sumiu das lojas antes de qualquer um perceber
Suikoden II no PS1:
o RPG mais caro do console
Por que um dos maiores JRPGs já criados virou raridade absoluta antes mesmo de alguem perceber o que estava acontecendo.
Em 1999, enquanto o Brasil discutia a virada do milênio e o Playstation dominava as locadoras de Sao Paulo a Porto Alegre, um jogo chegou silenciosamente às prateleiras norte-americanas e japonesas, ficou algumas semanas a venda, e desapareceu. Nao foi banido. Nao foi destruido. Simplesmente foi embora antes que o mundo entendesse o que tinha nas maos.
Suikoden II, lancado pela Konami em 1998 no Japao e 1999 nos EUA, vendeu mal. A Konami imprimiu poucos discos. As lojas nao repuseram o estoque. E entao o boca a boca comecou, devagar, como numa runa que so acende anos depois. Quando os jogadores foram procurar o jogo, ele ja nao estava mais em lugar algum.
Hoje, uma copia americana completa em caixa pode custar mais de R$15.000. Mesmo o disco avulso, sem caixa ou manual, chega facilmente a R$3.000 em plataformas de colecao. Esta e a historia de como um RPG genial se tornou o Santo Graal do PS1, e por que o Brasil ficou de fora da festa desde o primeiro dia.
Um jogo feito com ambicao demais para sua epoca
A serie Suikoden nasceu em 1995, criada por Yoshitaka Murayama com inspiracao direta no romance classico chines “Shui Hu Zhuan” (Os 108 Herois). O primeiro jogo teve sucesso modesto no Japao e passou quase despercebido nos EUA. Mas Murayama e sua equipe estavam apenas aquecendo.
Suikoden II chegou em 1998 com uma proposta que parecia impossivel para um RPG daquele momento: uma narrativa politica adulta, com traicoes reais, personagens que morriam permanentemente e uma historia de amizade e guerra que rivalizava com roteiros de cinema. Enquanto Final Fantasy VII apostava no espetaculo visual, Suikoden II apostava na emocao crua.
O sistema de recrutamento de 108 personagens, cada um com subquests proprias, criou um mundo que convidava o jogador a voltar dezenas de vezes. E o sistema de batalha em grupo, combinado com as batalhas de exercito em tempo real, oferecia variedade que poucos JRPGs da era conseguiam.
Lancada em 1999. Impressao limitada, sem reposicao de estoque. Considerada a mais rara entre os colecionadores ocidentais.
CIB: R$15.000+
“Gensomaden Suikoden II”. Mais acessivel no Japao, mas ainda cobiçada. Sem traducao oficial, exige dominio de japones para jogar a versao original.
CIB: R$2.000 a R$5.000De lancamento quieto a lenda do colecionismo
Por que ele desapareceu antes de qualquer um perceber?
A resposta nao e simples e nao e unica. Suikoden II nao sumiu por um motivo so; ele desapareceu pela convergencia de varios fatores que, separados, seriam apenas inconvenientes, mas juntos criaram uma tormenta perfeita de escassez.
“Suikoden II e o jogo que mais pessoas descobriram depois de nao poder mais comprar. A fama chegou quando as prateleiras ja estavam vazias.”Observacao recorrente em comunidades de colecionadores de JRPG, 2000s
O Brasil e Suikoden II: uma relacao de distancia e desejo
Em 1999, o Brasil vivia a era de ouro das locadoras. Cidades como Sao Paulo, Curitiba e Porto Alegre tinham locadoras especializadas em games por bairro. O Playstation era o rei, e jogos importados circulavam em copias alteradas por toda parte.
Mas Suikoden II chegou a esse mercado de uma forma muito especifica: quase nao chegou. Por ser um RPG em ingles, sem traducao para o portugues, o jogo enfrentava a barreira do idioma que afugentava boa parte do publico brasileiro da epoca. As locadoras priorizavam jogos de acao, lutas e esportes, que rodavam sem exigir leitura.
Quem tinha acesso ao Suikoden II no Brasil dos anos 2000 era, quase invariavelmente, alguem que acompanhava foruns importados, lia revistas americanas ou tinha acesso a importadoras de Sao Paulo que trabalhavam com NTSC-J. Era um jogo de nicho dentro de um nicho, frequentado por um publico que sabia o que procurava antes mesmo de saber que o jogo existia.
O salario minimo brasileiro em 1999 era de R$136. Uma copia importada do jogo, quando aparecia, custava em torno de R$80 a R$120 nas importadoras paulistanas, representando quase um salario inteiro. Para a esmagadora maioria dos jogadores brasileiros da epoca, Suikoden II era simplesmente inacessivel por preco, por idioma e por disponibilidade.
Por que nao teve versao em portugues?
A localizacao de RPGs para o Brasil era virtualmente inexistente nos anos 90. A Gradiente, que distribuia o Nintendo 64, e a TecToy, parceira da Sega, focavam em titulos de acao. A Sony do Brasil, representada pela Playtronic, nao tinha estrutura para projetos de localizacao de RPGs japoneses.
O publico brasileiro de JRPG da epoca aprendia ingles junto com os jogos, por necessidade pura. Final Fantasy VII, Xenogears e Suikoden II foram professores de ingles involuntarios para uma geracao de jogadores brasileiros que hoje sao os principais colecionadores e preservacionistas da cena nacional.
A ausencia de Suikoden II no mercado oficial brasileiro tambem significou que nunca houve uma tiragem nacional do jogo. Nao existe uma “versao brasileira” para colecionar. Cada copia que circula no Brasil hoje e, necessariamente, importada, seja dos EUA, Japao ou Europa, e carrega o preco correspondente.
Como navegar nesse mercado sem se perder
Memorias de quem procurou (e encontrou) Suikoden II
“Fiquei dois anos procurando esse jogo. Corri todas as importadoras da Rua Santa Ifigenia nos anos 2000 e ninguem sabia o que era. Quando finalmente encontrei numa feira de usados em Campinas, paguei o equivalente a tres semanas de estagio e nao me arrependo ate hoje. E o melhor JRPG que ja joguei, sem discucao.”
“Aprendi japones por causa de Suikoden II. Minto, comecei a aprender japones por causa de Suikoden II. Importei a versao NTSC-J em 2003 por um preco que ainda era absurdo pra epoca, e passei seis meses com o dicionario do lado do controle. Hoje coleciono as duas versoes, japonesa e americana, mas a NTSC-J tem um valor sentimental que nao tem preco.”
“Meu primo trouxe dos EUA em 1999 numa viagem de negocios do pai. Na epoca nem sabiamos que era raro. Jogamos, amamos, emprestamos e a copia nunca voltou. Hoje essa historia e uma das minhas maiores dores do colecionismo. Uma copia NTSC-U que passou pelas minhas maos sem que eu soubesse o que tinha.”
Colecionar e preservar
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