Resident Evil no Brasil: do susto no PS1 ao pânico no Gamecube, como a franquia conquistou o retrogamer brasileiro
Resident Evil no Brasil
Do susto no PS1 ao pânico no GameCube: como a franquia de sobrevivência mais famosa do mundo conquistou o coracão, o bolso e o pesadelo do retrogamer brasileiro
Era 1996. O PS1 tinha acabado de chegar ao Brasil pelas maos da Playtronic, custando algo em torno de R$ 600 em um pais onde o salario minimo nao passava de R$ 112. Comprar um console era um investimento sério. E foi justamente nesse cenario que muitos brasileiros foram apresentados a Raccoon City pela primeira vez, em fitas VHS piratas gravadas de importados, em lan houses e naquele amigo que tinha “um contato” que trazia coisas de Sao Paulo.
Resident Evil nao foi apenas um jogo. Foi um evento cultural. No Brasil, onde a cultura do susto coletivo ja vivia nas maratanas de filmes da Xuxa e nos causos do Chico Xavier, a franquia da Capcom encontrou um terreno fertil e apaixonado. Aqui, o medo virou ritual de passagem. Jogar RE1 na casa de alguem, com a luz apagada, todo mundo gritando quando o cachorro pulava pela janela, era quase um rito social.
Este artigo percorre a trajetoria completa da franquia nas terras brasileiras: as versoes que chegaram, os precos absurdos da epoca, as pecas raras que hoje fazem colecionadores soltarem palavrao, e o momento em que o GameCube transformou o survival horror em algo que o Brasil nunca tinha visto antes.
Os Dois Marcos da Franquia no Brasil
A historia do Resident Evil no Brasil pode ser dividida em dois grandes momentos: a era do susto no PS1, quando o jogo chegou numa midia fragmentada, cara e cheia de versoes diferentes, e a era do pânico absoluto no GameCube, quando o Remake de 2002 elevou o nivel a um patamar que a maioria dos brasileiros so conheceu anos depois, via importacao.
O original que chegou ao Brasil pela Playtronic em versao americana (NTSC). Dublagem em ingles, sem suporte oficial em portugues. O susto da mansao Spencer entrou na cultura pop nacional de um jeito que a Capcom nunca planejou.
Lancamento: 1997 no Brasil
O REmake de 2002 chegou ao Brasil quase que exclusivamente via importacao e mercado cinza. Graficos pre-renderizados em alta resolucao, trilha sonora refeita e novos inimigos transformaram a experiencia em algo visceralmente diferente. Quem jogou nunca esqueceu.
Importado | Mercado CinzaLinha do Tempo: Resident Evil no Brasil
A Capcom lanca Resident Evil no Japao e EUA para PlayStation. O jogo vira sensacao imediata. No Brasil, as primeiras copias chegam ainda em 1996 via importacao informal, principalmente no eixo Sao Paulo-Rio. O preco de uma copia original americana gira em torno de US$ 50 mais frete, numa epoca em que US$ 1 valia aproximadamente R$ 1,03 (pos-Plano Real). Eram R$ 50 mais taxas alfandegarias, num pais onde o salario minimo era R$ 112.
Com o PS1 sendo distribuido pela Playtronic no Brasil, os jogos originais americanos passam a chegar com mais regularidade nas grandes redes. Resident Evil 1 e encontrado nas lojas autorizadas por valores entre R$ 90 e R$ 120, quando o salario minimo era R$ 120. Na pratica, um jogo original custava um salario minimo inteiro. O mercado de copias piratas, feitas em CDs gravados, explode como alternativa popular.
RE2 chega em janeiro de 1998 nos EUA e e considerado o pico tecnico do PS1. Leon S. Kennedy e Claire Redfield entram para o panteon do videogame brasileiro. O jogo vem em dois discos, o que so aumenta o charme. No Brasil, chega pela via importacao ainda em 1998, mas so e encontrado com facilidade em lojas especializadas de SP. O fenomeno das copias gravadas se intensifica: RE2 pirata era onipresente nas bancas de CD dos anos 90.
Resident Evil 3: Nemesis chega em setembro de 1999. O Nemesis, o inimigo que te perseguia por diferentes ambientes sem pausas para respirar, entra direto no imaginario de terror nacional. Na epoca, varios jovens brasileiros relatavam sonhos com o personagem, tal era a carga psicologica do jogo. A chegada no Brasil segue o padrao: caro, importado, com versao pirata muito mais acessivel.
Resident Evil Code: Veronica chega ao Dreamcast. No Brasil, o Dreamcast foi distribuido pela Tectoy, que tentou emplacar o console com bastante empenho, incluindo programas televisivos de suporte e uma rede de servico tecnico. Mas o console ja estava tecnicamente morto no mercado global. Code Veronica em Dreamcast original, com embalagem da Tectoy, e hoje uma peca de colecao muito valorizada no Brasil, justamente pela raridade da distribuicao oficial.
A Capcom lanca o REmake exclusivo para GameCube. O console da Nintendo chega ao Brasil pela Gradiente, mas a linha de jogos e limitada e o suporte oficial encerra cedo. RE Remake nunca teve lancamento oficial em portugues. Mas quem tinha um GameCube importado e encontrava a versao americana nas lojas de importados de SP ou via internet, vivia uma experiencia que nao tinha similar na epoca. O jogo definia o que um remake podia ser.
Resident Evil Zero completa a fase classica da franquia no GameCube. Com a historia de Rebecca Chambers antes dos eventos da mansao Spencer, o jogo e considerado o encerramento da era de survival horror de camera fixa. No Brasil, circulava nas mesmas lojas de importados que o REmake, por valores entre R$ 150 e R$ 200, numa epoca em que o salario minimo era R$ 240. Quem tinha os dois jogos era literalmente o rei da patota.
E importante entender que, no Brasil dos anos 90 e inicio dos 2000, a relacao com jogos de horror era diferente da experiencia japonesa ou americana. Aqui, jogar Resident Evil era frequentemente uma atividade coletiva. A ideia de sentar sozinho no escuro para encarar zumbis nao era algo que a maioria dos jogadores brasileiros fazia. O costume era reunir um grupo de amigos, dividir o controle, e cada um aguentar ate gritar ou pular do sofá.
Curiosidade historica: O episodio de Resident Evil 1 que mais gerou comentarios nas primeiras revistas de games brasileiras, como GamePower e SuperGamePower, era a famosa cena do cachorro pulando pela janela no corredor. Redatores descreviam a reacao do publico brasileiro como “coletiva e involuntaria” e varias edicoes trouxeram cartas de leitores relatando que pularam do sofa com amigos assistindo. A cena se tornou quase um causo urbano do retrogame nacional.
Os Jogos Classicos: Raridades e Valores no Brasil Hoje
Para o colecionador brasileiro, Resident Evil classico representa um campo minado de versoes, edicoes e plataformas. Abaixo, os principais titulos com contexto de raridade e valores aproximados no mercado nacional em 2026.
Original longbox americano (NTSC). Versao mais comum no mercado brasileiro. Com caixa e manual original, boa condicao.
Dois discos na mesma caixa. Peca bastante procurada. Completamente original com disco em bom estado e caixa intacta e raro.
Um dos mais procurados. Versao com a imagem do Nemesis na capa em bom estado ja valoriza. Avaliado antes de comprar: disco original risca diferente do pirata.
Versao Dreamcast da Tectoy e altamente valorizada por ser distribuicao oficial brasileira. A versao PS2 e mais acessivel mas menos rara. Peça unica no mercado BR.
O mais valorizado da era classica no mercado de colecao nacional. Versao americana NTSC com caixa mini-DVD integra. Nunca foi lancado oficialmente em pt-BR.
Frequentemente vendido junto com o REmake em lotes de colecao. Separado, tem boa valorizacao. Disco facilmente riscado pela particularidade dos mini-DVDs do GC.
RE Classico vs RE Remake: Por que o GameCube Mudou Tudo
Para entender a importancia do REmake de 2002, e preciso comparar lado a lado o que a Capcom entregou em relacao ao original de 1996. A diferenca nao era apenas grafica: era uma revisao completa da linguagem de terror do jogo.
| Elemento | RE1 Original (PS1, 1996) | RE REmake (GCN, 2002) |
|---|---|---|
| Graficos | Pre-renderizados de baixa resolucao, personagens poligonais limitados | Pre-renderizados em resolucao muito superior, iluminacao dinamica real |
| Trilha sonora | Composicoes MIDI originais, atmosfericas mas limitadas pelo hardware | Regravadas com instrumentos reais, muito mais opressivas e sofisticadas |
| Inimigos | Zumbis padrao e chefes originais do roteiro | Crimson Heads: zumbis que ressuscitam mais rapidos e agressivos se nao forem queimados |
| Novos ambientes | Mansao Spencer + jardim externo + cemiterio + laboratorio | Todas as areas refeitas + novos corredores, salas secretas e conteudo inedito |
| Roteiro | Dialogo original (famoso pela traducao/atuacao mediocre em ingles) | Roteiro expandido com novos acontecimentos e personagens com mais profundidade |
| Acesso no Brasil | Playtronic via importacao legal ou copia | Apenas importacao | sem lancamento oficial BR |
Jogar o REmake no GameCube em 2002 era como entrar na mansao pela primeira vez de novo, mas agora o medo era real. O nivel de detalhes nas texturas, a escuridao entre os cantos, o som do fogo queimando o zumbi… era cinematografico de um jeito que o PS2 nao tinha entregue ainda.
Impressao coletiva dos primeiros jogadores brasileiros com acesso ao REmake via importacao, registrada em foruns como GameVicio e GamesNBR entre 2002 e 2003
O Mercado Paralelo e a Democratizacao do Terror
Um dado importante sobre a relacao do Brasil com Resident Evil e que a vasta maioria dos jogadores que conheceram a franquia nos anos 90 e inicio dos 2000 nao jogou em copias originais. O sistema de copias piratas, amplamente difundido para PS1, significava que RE1, RE2 e RE3 chegaram a dezenas de milhares de lares brasileiros que jamais teriam pago R$ 90 a R$ 120 por um original.
Essa democratizacao via mercado informal tem um peso cultural enorme: Resident Evil e uma memoria afetiva compartilhada por uma geracao inteira de brasileiros que tecnicamente nunca foi o publico-alvo da distribuicao oficial. A Playtronic distribuia fisicamente o PS1, mas nao tinha estrutura nem interesse em garantir que jogos de terceiros chegassem a precos acessiveis ao consumidor medio.
O resultado e que, hoje, colecionadores brasileiros que buscam os originais estao literalmente pagando pela experiencia que nao tiveram quando criancas: a de ter o objeto fisico, a caixa intacta, o manual com o mapa da mansao dobrado. E um mercado movido por afeto, culpa e orgulho ao mesmo tempo.
Guia do Colecionador: Dicas para Colecionar RE Classico no Brasil
Discos de PS1 piratas dos anos 90 tem uma aparencia levemente diferente: a area de gravacao no verso costuma ser levemente mais esverdeada ou azulada. Originais tem o verso prateado uniforme. No GC, mini-DVDs originais tem bordas muito precisas, sem marcas de rebarbas.
RE1 para PS1 foi lancado originalmente em longbox (a caixa alta de cartao). Versoes posteriores vieram em jewel case padrao. O longbox original e mais valorizado e mais raro. Fique atento ao formato da embalagem ao comprar.
Qualquer versao Dreamcast com embalagem e manual da Tectoy tem um premium de colecao no Brasil. A distribuicao oficial pela Tectoy foi limitada e a maioria das pecas nao sobreviveu ao tempo. Autentique pelo codigo de catalogo na lateral da caixa.
Os mini-DVDs do GameCube sao muito mais suscetiveis a arranhoes do que discos normais. Antes de pagar, peca para inspecionar o disco com luz obliqua. Um mini-DVD riscado no REmake pode custar caro para recuperar ou pode ser irrecuperavel.
Os manuais de RE1 e RE2 originais vinham com o mapa da mansao ou de Raccoon City impresso em papel separado dobrado. Esse inserto e frequentemente perdido. Um CIB completo com o mapa original em bom estado pode dobrar o valor em relacao a um sem o inserto.
Para RE classico no Brasil, os melhores canais sao o grupo “Retrogames Brasil” no Facebook, o servidor da comunidade de colecao no Discord, e feiras como a Retrocon SP. Mercado Livre funciona mas exige mais cautela com vendedores sem reputacao estabelecida.
Memórias de Quem Estava La
“Eu tinha uns 12 anos quando um amigo trouxe o RE1 pirata la pra casa. A gente jogou na sala com a luz apagada, todo mundo espremido no sofa. Quando o cachorro pulou pela janela do corredor, meu amigo jogou o controle no chao de tanto susto. A mae dele veio correndo achando que tinha acontecido alguma coisa. Nunca me esqueço. Trinta anos depois comprei o longbox original e coloquei na prateleira como relíquia.”
“Eu trabalhava numa locadora em Belem no fim dos anos 90. RE2 era o jogo mais alugado, disparado. As pessoas devolviam com cara de quem nao dormiu. Uma vez um cliente devolveu o disco risçado porque tinha jogado o controle no joelho num susto e batido no CD. Me pediu desconto. Eu entendi: todo mundo havia feito alguma coisa assim com esse jogo.”
“Comprei o REmake do GameCube numa loja de importados no Shopping Frei Caneca em 2003. Paguei R$ 180 numa epoca que o meu estagio pagava R$ 300. Vale cada centavo ate hoje. Aquele jogo redefiniu o que survival horror significava. Tem uma cena no laboratorio com o Crimson Head que eu ainda me recuso a jogar sozinho a noite.”
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