Winning Eleven no PS2: por que o jogo de futebol da Konami era mais jogado no Brasil do que o FIFA
Por que o Winning Eleven era mais jogado que o FIFA no Brasil
A Konami conquistou uma geração inteira de brasileiros com física de bola honesta, elencos fieis e um modo de jogo que entendia o que era futebol de verdade
Quem cresceu nos anos 2000 com um PlayStation 2 no quarto sabe exatamente como era: você chegava da escola, ligava o videogame, e invariavelmente alguém colocava Winning Eleven para jogar. Nao era FIFA. Era WE, PES, Konami, chame como quiser. O jogo da Konami dominou quartos, LAN houses e festas de final de semana por quase uma decada no Brasil com uma intensidade que o rival da EA Sports nunca conseguiu replicar.
O fenomeno nao foi por acaso. Winning Eleven era simplesmente um jogo de futebol melhor para o padrao do jogador brasileiro. Fisica de bola mais natural, jogabilidade que punia chute fora de hora e recompensava raciocinio tattico, elencos com nomes reais de jogadores que o Brasil conhecia de cor. A EA tinha licenca oficial, mas a Konami tinha alma de futebol.
Este artigo reconta essa historia: como a Konami chegou ao topo no Brasil, por que o FIFA demorou tanto para reagir, e o que ficou de legado dessa rivalidade que moldou toda uma geracao de gamers.
A Ascensao da Konami no Brasil
Uma decada de dominancia construida jogo a jogo
A Konami ja mostrava seus planos antes do PS2 existir. O ISS no Super Nintendo tinha fisica de bola diferente de tudo que existia, e o Brasil descobriu que jogar futebol em videogame podia ser algo serio. A seed do Winning Eleven estava plantada.
Ainda no PS1, o WE ja competia de igual para igual com o FIFA. Muitos retrogamers brasileiros se lembram das noites inteiras com WE3, comparando elencos e discutindo qual time era melhor para vencer o modo World Cup.
Quando o PS2 chegou ao Brasil pela Gradiente por R$ 799 (quase dois salarios minimos da epoca), a Konami ja tinha Winning Eleven 5 pronto para mostrar tudo que o hardware conseguia. O FIFA daquele ano parecia travado em comparacao. A diferenca na animacao dos jogadores era nua e crua.
Winning Eleven 6 foi lancado no mesmo ano da Copa do Mundo no Japao e Coreia. O Brasil ganhou o pentacampeonato, e o Ronaldo de WE6 era o melhor Ronaldo que videogame ja tinha feito. As LAN houses de Sao Paulo e do Rio enchiam so para jogar partidas do WE6. Era quase um evento social.
A Konami comecou a alternar nomes: Winning Eleven no Japao e EUA, Pro Evolution Soccer na Europa. No Brasil, a marca WE ja era tao forte que as copias piratas mantinham o nome mesmo quando o jogo oficial era lancado como PES. Era o auge da dominancia.
O PES 6 foi o ultimo capitulo da era de ouro. A Konami comeou a perder licencas para a EA, que foi comprando exclusividades de ligas e selecoes. O Arsenal sem nome, o Milan com nomes inventados, os times chamados de “South” e “North” foram corroendo a identidade que tornara o jogo famoso.
A EA investiu pesado em licencas e em motor de fisica. FIFA 09 foi o primeiro jogo da franquia que o Brasil jogou de igual para igual com o PES. A partir dali, a disputa se tornou real de novo, e o reinado da Konami comecou a ruir lentamente.
Lancado pela Gradiente em 2001 por R$ 799, o PS2 chegou como item de luxo. Com o tempo, copias nao oficiais e o mercado paralelo tornaram o console onipresente nas periferias e nas LAN houses. Era o hardware perfeito para o Winning Eleven brilhar.
No Brasil, os jogos fisicos originais chegavam importados por R$ 80 a R$ 120 numa epoca em que o salario minimo era R$ 200. A maioria jogava em copias. Mesmo assim, a Konami dominava absoluta porque o jogo era melhor, original ou nao.
Por que o WE Vencia o FIFA no Brasil
Seis razoes tecnicas e culturais que explicam a dominancia da Konami
Fisica de bola que fazia sentido
A bola no WE seguia trajetorias realistas: a meia-lua do Adriano, a folha seca do Roberto Carlos, o chute colocado de Ronaldinho Gaucho. O FIFA da epoca tinha bola borrachuda, sem peso. Qualquer um que assistia futebol na TV percebia a diferenca em segundos.
Jogabilidade que punia o botao frenezi
No FIFA voce podia apertar qualquer botao a qualquer hora e o jogo respondia de alguma forma. No WE, se voce chutasse fora de hora, o jogador errava feio. Isso criava uma curva de aprendizado que o brasileiro respeitava porque entendia de futebol de verdade.
Os craques brasileiros eram eles mesmos
Ronaldo Fenomeno, Ronaldinho, Adriano, Roberto Carlos, Rivaldo: no WE, todos tinham atributos que refletiam o que faziam em campo de verdade. O Adriano chutava de longe com forca absurda. O Roberto Carlos cobrava faltas com curva impossivel. O FIFA era generico demais nessa epoca.
Master League: vicio antes do modo carreira
A Master League era o modo carreira do WE antes da EA sequer pensar em algo parecido. Voce comecava com um time de jogadores criados, sem nome, e tinha que subir de divisao comprando jogadores reais com pontos do jogo. Decadas antes do FIFA Ultimate Team existir.
O mercado de copias democratizou o acesso
O WE pirata era R$ 5 na bancada de revista. O FIFA pirata tambem era R$ 5. A diferenca era que o WE pirata era praticamente identico ao original em experiencia de jogo. O brasileiro medio nao escolhia por preco, escolhia por qualidade. E o WE era melhor.
LAN houses viraram academias de WE
Nas LAN houses de periferia o computador servia para Orkut e Counter-Strike. Mas tinha sempre um PS2 numa TV de canto para o Winning Eleven. Era o jogo de futebol da rua transposto para o eletronico, com regras simples e skill ceiling alto o bastante para criar rivalidades de anos.
“No WE, quando voce chutava um jogador errado no momento errado, o jogo punia. E era exatamente assim que funcionava no futebol de verdade. O FIFA deixava passar. Por isso o Brasil escolheu a Konami.” Impressao geral dos retrogamers que viveram a era PS2
As Edicoes que Definiram uma Geracao
Do WE5 ao PES 6, cada versao teve seu momento de gloria nas casas brasileiras
Winning Eleven 6 (2002)
Winning Eleven 7 (2003) e WE7 International
Pro Evolution Soccer 4 (2004)
Pro Evolution Soccer 5 (2005)
Pro Evolution Soccer 6 (2006)
O que o FIFA Tinha que o WE Nao Tinha
Seria desonesto pintar um quadro totalmente unilateral. O FIFA da EA Sports tinha virtudes reais que o Winning Eleven nao conseguia replicar. As licencas oficiais da Premier League e da Champions League significavam que voce podia jogar com times cujos nomes voce via na TV: Arsenal, Chelsea, Manchester United com emblemas e uniformes oficiais.
O FIFA tambem era melhor na simulacao de partidas individuais ocasionais, o que o tornava mais acessivel para quem nao queria aprender uma curva de aprendizado. E a EA investia pesado em marketing: quem era fanatico por FIFA 2002 e 2003 tinha argumentos validos, mesmo que fossem minoria no Brasil.
A grande ironia e que foi a perda das licencas pela Konami que mudou o equilibrio, nao uma melhoria repentina do FIFA. A EA ganhou a guerra de futebol virtual no Brasil pela carteira, nao pelo talento.
Dicas para quem quer colecionar WE no PS2 hoje
Memorias de quem estava la
Tres retrogamers brasileiros e o que o Winning Eleven significou para eles
“Na minha casa tinha PS2 com WE6 e quando chegava amigo novo eu colocava o jogo pra testar o cara. Nao conseguia jogar com Adriano, ja sabia que nao ia rolar amizade.”
“Trabalhei numa LAN house em 2004. O PS2 que ficava la era so para WE. As vezes a fila para jogar era maior que a fila para o Counter-Strike. Gente adulta esperando para jogar WE4 num sabado a tarde.”
“Meu irmao mais velho me ensinou a jogar futebol assistindo ele no WE5. A folha seca do Roberto Carlos, a arrancada do Ronaldinho. Quando fui ver o jogo real na TV, reconhecia os movimentos.”
O Futebol mais Honesto que o Videogame ja Fez
Winning Eleven nao foi so um jogo. Foi como o Brasil aprendeu que videogame de futebol podia ser levado a serio.
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