Tony Hawk’s Pro Skater no Brasil: skate, punk rock e o jogo que definiu o recreio dos anos 2000
Tony Hawk’s Pro Skater
no Brasil:
Skate, Punk Rock
e o Recreio dos Anos 2000
Como um jogo de skate americano virou trilha sonora de uma geração inteira de pátios escolares brasileiros
Antes mesmo de a maioria dos adolescentes brasileiros ter pisado num skate de verdade, eles já sabiam fazer um 900 com o Tony Hawk. Era 1999 nos EUA, 2000 por aqui, e o PlayStation vivia nas locadoras de bairro. Quem encostava a mão num controle naquele verão saiu diferente.
Tony Hawk’s Pro Skater chegou ao Brasil dentro de um contexto curioso: o skate ainda era visto como coisa de “pivete” ou de quem “não tinha nada pra fazer”. Mas o jogo foi Trojan horse perfeito. Ele entrou pela janela da locadora, se instalou nos jogos de recreio e, sem pedir licença, levou junto o punk rock, o pop punk e o nu-metal pra dentro de lares onde o Backstreet Boys ainda era a referência musical dominante.
Esse artigo conta a história de como uma franquia de skateboarding fabricada em San Jose, Califórnia, se tornou um fenômeno de geração no Brasil, moldando gostos musicais, vocabulário de rua e até o mercado de videogames nas locadoras de 2000 a 2004.
O Brasil que Recebeu o Jogo
Em 2000, o Brasil estava no auge da cultura da locadora. A Blockbuster tinha franquias nas capitais, mas eram as locadoras independentes de bairro que mandavam nas periferias e nas cidades menores. Um PlayStation custava em torno de R$450 a R$550 na época, o equivalente a quase dois salários mínimos (R$151 em 2000). Comprar o videogame era sonho de classe média. Alugar por R$4 ou R$5 por dia era realidade de todo mundo.
Tony Hawk’s Pro Skater chegou ao país sem campanha publicitária oficial de peso. A Playtronic, distribuidora da Sony no Brasil, se concentrava nos títulos de maior apelo mainstream como Gran Turismo e FIFA. O THPS entrou quase silenciosamente, mas saiu das prateleiras das locadoras por pressão pura de boca a boca. Um garoto alugava, mostrava pra cinco amigos no recreio na segunda-feira, e sexta-feira a locadora estava sem cópia disponível no fim de semana.
O skate brasileiro ainda vivia o boom pós-Bob Burnquist, que havia conquistado visibilidade nos X Games em 1997. Mas skateboarding de rua ainda era estigmatizado em boa parte das cidades interioranas do Brasil. O THPS funcionou como uma janela: deu pra muita gente o primeiro contato com a linguagem do skate, com os truques, com a estética visual, antes de qualquer contato real com uma prancha.
Tony Hawk’s Pro Skater 1 (1999)
PS1. O original que chegou ao Brasil via locadoras em 2000. Warehouse, Mall e The Hangar viraram nomes conhecidos de qualquer crianca da epoca.
Tony Hawk’s Pro Skater 2 (2000)
Considerado o melhor da franquia. Introducao dos manuals e da criacao de skaters customizados. Bob Burnquist como personagem jogavel foi um momento historico para o Brasil.
A Franquia no Brasil: Ano a Ano
THPS1 chega aos EUA (setembro)
Lancado para PlayStation pela Activision, desenvolvido pela Neversoft. Vende mais de 1,5 milhao de copias nos primeiros meses. A trilha sonora com Dead Kennedys, Suicidal Tendencies e Goldfinger apresenta punk e skate punk para uma geracao inteira de jovens americanos.
THPS1 e THPS2 nas locadoras brasileiras
O primeiro titulo chega ao Brasil em copias importadas e pelo mercado paralelo. Locadoras do eixo Sao Paulo, Rio, BH e Curitiba ja tem o jogo nas prateleiras. THPS2 sai nos EUA em setembro de 2000 e chega ao Brasil rapidamente, com Bob Burnquist como personagem: momento divisor de aguas para o publico brasileiro.
THPS3 e a virada para o PS2
Tony Hawk’s Pro Skater 3 e lancado para PS2 e PS1. No Brasil, o PS2 ainda era caro (em torno de R$900 a R$1.100 no lancamento oficial em 2001), mas as locadoras investem no novo console. THPS3 introduz o revert, completando o sistema de combos. A franquia atinge o pico de popularidade nas locadoras brasileiras.
THPS4 e o inicio da era mundo aberto
A quarta entrada abandona o formato de 2 minutos por fase em favor de metas abertas sem timer. Divide a critica e o publico. No Brasil, o jogo ainda vende bem nas locadoras, mas comeca a concorrer com outros titulos de alto perfil como GTA Vice City.
Tony Hawk’s Underground e a narrativa personalizada
Primeira tentativa de contar uma historia com o jogador como protagonista. Voce era um skatista tentando estourar como profissional. No Brasil, o conceito de “criar seu proprio personagem e ser famoso” ressoa muito com o publico adolescente. O jogo circula intensamente nas locadoras em 2003 e 2004.
Underground 2 e o inicio do declinio
A Neversoft aposta num tom mais absurdo e humor. Tony Hawk e Bam Margera aparecem como viloes numa competicao mundial insana. O jogo e divertido, mas a franquia comeca a dar sinais de fadiga criativa. No Brasil, a locadora comeca a dar espaco para o boom do futebol virtual e dos RPG de acao.
A Trilha Que Educou Uma Geracao Musical
Se existe um aspecto de Tony Hawk’s Pro Skater que vai alem do videogame em si, e a trilha sonora. Para milhoes de jovens brasileiros sem acesso a MTV americana ou a lojas de disco especializadas, o THPS foi a primeira porta de entrada para punk rock, hardcore, ska punk e metal alternativo.
“Guerrilla Radio” do Rage Against the Machine tocava no THPS2 enquanto voce tentava encadear um combo impossivel no Venice Beach. “Superman” do Goldfinger era o hino do Warehouse. “Police Truck” do Dead Kennedys soava enquanto adolescentes brasileiros que nunca tinham ouvido falar em punk politico norte-americano tentavam completar os gaps do Mall. A musica nao era fundo, era personagem.
Nao era raro em 2001 e 2002 ver adolescentes brasileiros digitando nomes de bandas do THPS no Napster ou no Kazaa para baixar as musicas do jogo. A franquia funcionou como um algoritmo de descoberta musical anos antes do Spotify existir. Muitas pessoas que hoje consomem punk rock ou metal tem no THPS o primeiro contato com o genero, mesmo que nao se lembrem mais disso conscientemente.
Os Jogos Principais na Memoria do Brasil
Tony Hawk’s Pro Skater 1
O original. Nove pistas, dois minutos por run, sistema de tricks simples e trilha sonora que mudou vidas. Warehouse e Skate Park sao classicos imortais. No Brasil, chegou principalmente por locadoras em 2000.
PS1 / N64Tony Hawk’s Pro Skater 2
Considerado o melhor da serie por muitos. Introducao dos manuals transformou o sistema de combos. Bob Burnquist jogavel foi um marco para o Brasil. Metacritic: 98/100 no PS1, um dos jogos mais bem avaliados da historia.
PS1 / N64 / DC / PCTony Hawk’s Pro Skater 3
A transicao para o PS2. O revert (reverter na beira do half-pipe) completou o loop de combos. Ricercar visual e o Canada Skatepark sao lembrados ate hoje. No Brasil, foi o primeiro THPS que muitos jogaram no PS2 da locadora.
PS2 / PS1 / NGC / GBA
Tony Hawk’s Pro Skater 4
Eliminou o timer de 2 minutos em favor de metas abertas. Divisor de aguas: parte do publico adorou a liberdade, parte sentiu falta da tensao do timer. No Brasil, concorreu diretamente com GTA Vice City pelo tempo nas locadoras.
PS2 / GCN / Xbox / PC
Tony Hawk’s Underground
Primeira tentativa de narrativa propria: voce era o skatista, nao o Tony Hawk. Customizacao de personagem profunda. Permitia sair do skate e andar a pe. No Brasil, foi sucesso nas locadoras de 2003 a 2004.
PS2 / GCN / Xbox / GBA
Tony Hawk’s Underground 2
Tom mais abusado, Bam Margera como protagonista ao lado do Tony. Missoes em cidades como Berlin e Barcelona. Marcou o inicio do declinio criativo da franquia, mas ainda tinha bons momentos. Ultimo THPS com impacto real no Brasil das locadoras.
PS2 / GCN / Xbox / PCO Que o THPS Plantou no Brasil
A influencia de Tony Hawk’s Pro Skater no Brasil vai muito alem das locadoras. O jogo chegou num momento em que a cultura skateboard ainda era periferica na maioria das cidades brasileiras fora do eixo Sao Paulo, Rio e litoral. O THPS funcionou como vetor de normalizacao: depois de 2001, skate tinha cara de personagem de videogame. Tinha trilha sonora. Tinha nomes, truques e vocabulario proprios que qualquer garoto podia aprender sem precisar sair de casa.
O vocabulario entrou direto no repertorio do recreio. “Fazer um kickflip”, “soltar o grind”, “dar um 900” viraram expressoes usadas por criancas que nunca pisaram num skate de verdade. E uma parcela desses garotos saiu da locadora, pediu uma prancha de presente de aniversario e foi atrde de uma pista real. Alguns viraram skatistas. O THPS e, parcialmente, responsavel por uma geracao de skaters brasileiros que encontrou o esporte no meio dos anos 2000.
Na frente musical, o impacto foi ainda mais duradouro. Bandas como Dead Kennedys, Bad Religion, Rage Against the Machine, Nofx e Goldfinger ganharam fas brasileiros que nunca teriam chegado ate elas por outro caminho. As locadoras nao tinham manual de instrucoes do punk rock americano, mas o THPS sim. Hoje e comum encontrar musicos brasileiros de punk e hardcore que citam o THPS como primeira referencia musical do genero.
O Bob Burnquist merece um paragrafo proprio. Sua presenca como personagem jogavel em THPS2 teve um efeito simbolico imenso para o publico brasileiro. Num jogo dominado por nomes americanos, ver um paulista (nascido em Sao Paulo em 1976) naquele roster era validacao cultural. Muitas criancas foram pesquisar quem era Bob Burnquist depois de jogar THPS2 e chegaram aos X Games, ao skate profissional brasileiro, a uma historia real de sucesso nacional no esporte.
Montando Sua Colecao THPS Hoje em Dia
O mercado de retrocolecao para a franquia Tony Hawk no Brasil e acessivel e gratificante. A maioria dos titulos PS1 e PS2 ainda circula a precos razoaveis, mas alguns pontos merecem atencao antes de comprar.
Verifique o Estado do Disco
Copias de locadora foram muito usadas. Exija ver o disco antes de comprar. Arranhoes radiais leves sao normais; arranhoes circulares profundos causam travamentos. PS1 e mais tolerante que PS2.
CIB Vale Muito Mais
Um THPS2 PS1 CIB (completo com caixa e manual) pode valer 3x a 4x mais que um loose. As caixas pretas do PS1 sao frageis e as copias completas sao raras no Brasil, onde a cultura de guardar embalagem era menos difundida.
Versoes Importadas e Comuns
A maioria das copias no Brasil veio dos EUA (NTSC) ou da Europa (PAL). NTSC roda em PS1 e PS2 brasileiros sem problemas. Versoes PAL precisam de adaptador ou console europeu. Confirme a regiao antes de comprar.
Precos de Referencia (2025/2026)
THPS2 PS1 loose: R$30 a R$70. THPS2 PS1 CIB: R$150 a R$300. THPS3 PS2 loose: R$25 a R$60. Underground PS2: R$30 a R$80. Precos variam muito em feiras e grupos online.
THPS1+2 Remaster (2020)
O remaster lancado em 2020 pela Vicarious Visions e a versao definitiva dos dois primeiros jogos com graficos modernos e trilha sonora restaurada. Vale muito para revisitar a experiencia. Disponivel no PS4, Xbox e PC.
THPS4 e Underground Sao Subestimados
O mercado ainda nao precificou bem THPS4 e Underground. Copias PS2 desses titulos custam pouco e sao jogos excelentes. Para colecionar a franquia completa, sao otimas entradas com bom custo-beneficio.
“Eu aprendi o nome Rage Against the Machine jogando THPS2. Fui la no Kazaa, baixei umas cinco musicas, e ate hoje e uma das minhas bandas favoritas. Tudo comecou no Warehouse com aquele 900 impossivel do Tony.”
“A locadora perto de casa tinha duas copias do THPS3 pra PS2. Toda sexta eu ia correndo depois da escola porque se chegasse tarde nao tinha copia. Passava o fim de semana inteiro tentando bater o high score do Foundry.”
“Quando vi o Bob Burnquist no THPS2 achei que era mentira. Um brasileiro no jogo! Fui pesquisar quem era ele, vi videos dos X Games, e virei fas de skate. Comprei meu primeiro skate de verdade com 12 anos por causa do THPS.”
O Recreio Nunca Mais Foi o Mesmo
Tony Hawk’s Pro Skater nao foi so um jogo. Foi uma janela pro skate, pro punk rock e pra uma cultura que o Brasil estava comecando a descobrir. Essa geracao nao esquece.
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