The Warriors no PS2: Rockstar antes do GTA dominar tudo e por que esse jogo merece mais atenção
The Warriors no PS2: Rockstar antes do GTA dominar tudo
Em 2005, a Rockstar Games lancou um jogo de pancadaria, fidelidade ao cult film de 1979 e uma visao de mundo que a maioria das pessoas simplesmente ignorou. Esse erro precisa ser corrigido.
Setembro de 2005. Quem estava prestando atencao nos videogames estava de olho em Shadow of the Colossus, em Fahrenheit e nas primeiras noticias do PlayStation 3. O clima era de fim de geração, aquela sensacao de que a festa estava chegando ao fim e ninguem queria desperdicar fichas. Foi exatamente nesse momento que a Rockstar Games jogou nas prateleiras algo que ninguem esperava: um jogo de beat ‘em up ambientado no submundo das gangues de Nova York dos anos 70, baseado num filme cult que tinha mais de vinte anos de estrada.
The Warriors chegou sem o peso de uma campanha de marketing megalomaníaca. Sem outdoor na Avenida Paulista, sem capa da Supergame Power. Chegou discreto, foi bem avaliado pela crítica especializada e sumiu das prateleiras em semanas. No Brasil, quem correu atrás e achou numa locadora de bairro ou numa loja da Saraiva em 2006 sabe que estava diante de algo diferente. Um jogo que a Rockstar fez com a mesma seriedade de GTA, mas com uma audácia ainda maior: contar uma história sem protagonista com poderes, sem carro para roubar e sem mapa aberto.
Este artigo existe para dizer o que deveria ter sido dito em 2005: The Warriors e um dos melhores jogos da geração PS2, e a historia de como ele foi feito, recebido e quase esquecido merece ser contada do jeito certo.
O Filme Que Virou Biblia
🎬 Nova York, 1979: o cenario de um jogo antes do jogo existir
O filme The Warriors, dirigido por Walter Hill, estreou nos Estados Unidos em fevereiro de 1979 num contexto de panico moral. A Paramount chegou a retirar comerciais do ar depois que brigas entre torcidas rivais aconteceram em sessoes de cinema pelo pais. O filme foi acusado de glorificar gangues. O que a critica moralista nao conseguiu enxergar e que a obra de Hill era quase grega: a jornada de um grupo atraves de territorio inimigo, perseguido por toda a cidade, tentando chegar em casa.
No Brasil, o filme chegou com o titulo Os Selvagens da Noite e foi exibido em circuito reduzido. Ganhou vida longa no VHS e nas locadoras, onde virou cult genuino entre adolescentes dos anos 80 que assistiam repetidamente so para ver a cena iconica do vilao Cyrus, as jaquetas de couro das gangues e aquele grito provocador: “Warrioooors, come out to plaaaaay.” Quem cresceu nos anos 80 e 90 no Brasil conhecia esse filme de memoria antes de saber o nome do diretor.
A Historia do Jogo no Brasil
A Rockstar Games anuncia o projeto. A empresa estava no auge com GTA: San Andreas prestes a ser lancado. A imprensa especializada tratou o anuncio de The Warriors como projeto secundario, um “projeto entre grandes lancamentos”. Esse erro de leitura nunca foi corrigido oficialmente.
Lancamento nos Estados Unidos para PS2 e Xbox. A versao americana custa US$49,99, equivalente a cerca de R$110 na cotacao da epoca, num momento em que o salario minimo brasileiro era R$300. Ou seja: quase 40% de um salario minimo comprava um jogo de importacao.
O jogo chega oficialmente ao Brasil distribuido pela Playstation Brasil. O preco nas prateleiras girava entre R$79,90 e R$99,90 dependendo da loja. Em Sao Paulo, era possivel achar em lojas do Shopping Ibirapuera e em alguns pontos da Feirinha da Liberdade. Fora do eixo Sao Paulo-Rio, basicamente inexistente no varejo formal.
A Rockstar lanca versao ampliada para PSP com conteudo adicional. No Brasil, essa versao nunca chegou no varejo tradicional e ficou restrita a importacao e ao mercado paralelo, que no periodo do PS2 era robusto e funcionava nas mesmas feiras onde se comprava DVD pirata.
Apos anos de ausencia, The Warriors finalmente chegou ao PS Plus Premium como classico de PS2. Para boa parte da geracao que nunca teve acesso ao jogo original, foi o primeiro contato. A reacao nas redes foi de espanto coletivo: como um jogo assim ficou tanto tempo fora do radar?
Por Que Esse Jogo Merece Mais Atencao
The Warriors foi um lembrete de que a Rockstar nao fazia jogos de crime. Ela fazia retratos humanos usando o crime como pano de fundo. Nesse sentido, foi mais honesta do que qualquer GTA.
Marcus Lima, editor da GameBrasil, revisitando o jogo em 2023O que a Rockstar Provou com The Warriors
Em 2005, a Rockstar Games era o estudio mais rentavel e mais controverso do mundo dos games. GTA: San Andreas estava sendo investigado por politicos americanos por conta do mod Hot Coffee. A empresa estava literalmente sob ataque institucional. E nesse cenario, escolheu dedicar um time inteiro para fazer um jogo de beat ‘em up baseado num filme cult de 1979.
Essa escolha diz tudo sobre o tipo de empresa que a Rockstar era naquele momento: movida por teses artisticas, nao por calculos de mercado. O resultado foi um jogo que nao vendeu na proporcao que merecia, mas que foi reconhecido por quase todos os criticos que o jogaram como algo fora do ordinario.
No Brasil, o contexto agravou o problema. O PS2 ainda convivia com o mercado paralelo de discos gravados, o que significava que boa parte dos jogadores brasileiro nao pagava pelo jogo. Os poucos que compraram o original em 2006 frequentemente nao sabiam que tinham em maos um titulo acima da media. The Warriors ficou engavetado entre pilhas de FIFA e Pro Evolution Soccer.
Dicas para Colecionadores
Quem Jogou, Nao Esqueceu
“Achei na Fnac do Diamond Mall em 2006 por R$89. Fui comprar Pro Evo e sai com The Warriors. Ate hoje nao sei como tomei essa decisao. Acho que foi a melhor compra de jogo que ja fiz na vida.”
“Meu irmao tinha o filme em VHS do meu pai. Quando eu vi que era um jogo do mesmo universo fiquei maluca. Jogamos os dois juntos no co-op ate de madrugada. Meu PS2 ainda funciona e o disco tambem.”
“Joguei pela primeira vez no PS Plus em 2023. Fiquei bravo comigo mesmo por ter ignorado esse jogo por quase vinte anos. A Rockstar fez algo que a maioria dos estúdios nao conseguiria repetir hoje.”
O Arquivo do Retrogamer Brasileiro
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