Em novembro de 2003, quem entrou em qualquer locadora de Goiania, Recife ou Sao Paulo e colocou o disco de Prince of Persia: Sands of Time no PS2 viveu algo raro: a sensacao de que um jogo de videogame podia ser belissimo, cinematografico e absolutamente genial ao mesmo tempo. Era uma coisa diferente. Era arte.

A Ubisoft havia apostado em ressuscitar uma franquia que muita gente havia enterrado mentalmente nos anos 90, e o resultado foi um dos jogos mais bem recebidos da geracao dos 128 bits no mundo inteiro. No Brasil, onde o PS2 dominava as locadoras como o console hegemônico do momento, o jogo chegou com boa distribuicao, alcancou vitrine de destaque e ficou marcado na memoria de quem o jogou como um divisor de aguas.

Este artigo conta a historia completa de como Sands of Time chegou ao Brasil, por que ele importou tanto, o que fez o jogo ser diferente de tudo que veio antes, e como a franquia evoluiu dali em diante nos consoles disponiveis no nosso mercado.

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2003
Lancamento mundial
5plat
Versoes lancadas simultaneamente
97pts
Nota media Metacritic PS2
R$149
Preco medio locadoras 2003
1989
Ano do jogo original de Mechner
3
Jogos da trilogia das areias

O Mundo Antes das Areias

Para entender a importancia de Sands of Time, e preciso voltar um pouco e entender o que era o genero plataforma 3D em 2003. Mario 64 havia dado as regras em 1996, Crash Bandicoot havia popularizado a formula no PlayStation, e a virada do milenio havia trazido jogos cada vez mais complexos. Mas tambem havia um problema crescente: a maioria dos jogos de plataforma 3D estava ficando mecanicamente confusa, com cameras mal posicionadas, controles imprecisos e progressao frustrante.

No Brasil daquele momento, o PS2 era o rei absoluto das locadoras. Um estudo do setor estimava que havia mais de 15 mil pontos de locacao de videogame em funcionamento no pais, e boa parte deles tinha o PS2 como carro-chefe. Alugar um jogo custava em media de R$5 a R$8 para 48 horas, num pais onde o salario minimo estava em R$240 mensais. Comprar um jogo novo era algo reservado para poucas familias.

Foi nesse ambiente que Sands of Time chegou ao Brasil via locadora antes de qualquer coisa. O jogo chegou as prateleiras brasileiras por volta de dezembro de 2003, com um ou dois meses de atraso em relacao ao lancamento norte-americano de outubro, o que era absolutamente normal para a epoca e para o nosso mercado.

Capa de Prince of Persia: Sands of Time
Sands of Time (2003)
A capa classica com o Principe e a Adaga do Tempo. Visual que virou simbolo de uma geracao de gamers do PS2.
Prince of Persia original de 1989
Prince of Persia (1989)
O original de Jordan Mechner para Apple II. A animacao rotoscopia foi revolucionaria para a epoca e influenciou toda uma geracao.

A Historia da Franquia

1989

O Original que Mudou Tudo

Jordan Mechner lanca Prince of Persia para Apple II usando a tecnica de rotoscopia para criar animacoes fluidas nunca vistas em jogos. O jogo chega ao DOS, Amiga, SNES e diversas outras plataformas. No Brasil circula em copias de disquete para PC no comeco dos anos 90.

1993

Prince of Persia 2: The Shadow and the Flame

Sequencia direta com graficos melhorados. Mechner ainda no controle criativo. Circula no Brasil principalmente via PC e ate aparece em algumas locadoras especializadas em computadores em Sao Paulo e Rio.

1999

Prince of Persia 3D: Um Tropeço Necessario

A Broderbund, sem Mechner, tenta a transicao para o 3D. O resultado e tecnicamente fraco e bem recebido apenas moderadamente pela critica. No Brasil a versao para PC circula em CD-ROMs vendidos em bancas de jornal nos anos seguintes.

2003

Sands of Time: A Ressurreicao Gloriosa

A Ubisoft Montreal, com Mechner de volta como roteirista e diretor criativo, entrega algo especial. Lancamento global em outubro de 2003. No Brasil chega em dezembro via importacao e distribuidores locais. Notas maximas na imprensa especializada mundial e brasileira.

2004

Warrior Within: A Virada Sombria

Sequencia direta chega um ano depois com visual mais dark e pesado, influenciada por criticas que Sands of Time era “facil demais”. No Brasil vira alvo de debate nas revistas da epoca sobre qual dos dois era melhor.

2005

The Two Thrones: O Desfecho da Trilogia

Terceiro capitulo fecha a historia do Principe das areias equilibrando o tom dos dois anteriores. Ainda no PS2, ainda presente nas locadoras brasileiras. A trilogia completa ja estava disponivel para compra ou aluguel no Brasil.

O Que Fazia Sands of Time Ser Diferente

Qualquer pessoa que jogou Sands of Time em 2003 sabe que havia algo diferente ali desde os primeiros cinco minutos. O controle era fluido de um jeito que outros jogos de plataforma 3D nao eram. O Principe corria nas paredes, saltava com precisao cinematografica e o jogo raramente te punia de forma injusta.

O segredo estava na mecanica central: a Adaga do Tempo permitia rebobinar o tempo por alguns segundos. Caiu num buraco? Rebobina. Errou o salto? Rebobina. O jogo nao havia eliminado a morte, havia transformado a morte em algo gerenciavel. Era um design de genio absoluto que influenciou dezenas de jogos nos anos seguintes.

A Adaga do Tempo

Rebobinar o tempo virou a mecanica central. Ate 10 segundos de rewind disponivel. Uma ideia simples que resolveu o maior problema do plataforma 3D: a morte injusta.

🏃

Parkour Antes do Parkour

Corrida na parede, saltos encadeados, acrobacia fluida. Sands of Time inventou a linguagem visual e de controle que Mirror’s Edge e Assassin’s Creed usariam anos depois.

📖

Narrativa com Camadas

O Principe narra sua propria historia em voz over, o que cria uma metalinguagem inusitada. Se voce morria, ele corrigia: “Nao, nao foi assim que aconteceu”. Revolucionario.

🎵

Trilha Sonora de Cinema

Stuart Chatwood criou uma trilha que misturava rock persa e musica orquestral. Farou foi a mais ouvida na epoca e ate hoje e usada como referencia de musica de jogo artisticamente ambiciosa.

As Versoes no Mercado Brasileiro

Sands of Time foi lancado simultaneamente em cinco plataformas em 2003. No Brasil, nem todas chegaram com a mesma facilidade. A realidade do mercado local significava que algumas versoes eram mais acessiveis que outras, e o PS2 era de longe a mais facil de encontrar nas locadoras.

PS2

PlayStation 2 (Versao Principal no Brasil)

A mais jogada pelos brasileiros sem duvida. Chegou nas locadoras em dezembro de 2003 com boa distribuicao. Versao visualmente robusta, rodando em 30fps estaveis. A maioria das memorias afetivas dos gamers brasileiros com esse jogo veio desta versao. Comprar o jogo original custava entre R$130 e R$160, cerca de 55 a 67 por cento do salario minimo da epoca de R$240.

GC

GameCube (Versao Rara no Brasil)

Visualmente identica ao PS2 com pequenas vantagens de framerate em certos momentos. O GameCube era caro e raro no Brasil, sem distribuicao local oficial. Quem tinha era por importacao de shopping de fronteira ou via Paraguai. Hoje e uma das versoes mais raras de encontrar no mercado de colecao brasileiro.

XBOX

Xbox Original (Melhor Versao Tecnica)

Considerada pela critica a versao tecnicamente superior com resolucao levemente maior e texturas mais nitidas. O Xbox original tinha distribuicao no Brasil pela Microsoft, mas era bem menos popular que o PS2 nas locadoras. Existia, era alugavel, mas ficava na sombra do dominante da Sony.

PC

PC (Via CD-ROM e Lan Houses)

A versao de PC foi a porta de entrada de muitos brasileiros sem console na epoca. Existia em CD-ROM pirateado facilmente encontravel em qualquer banca de jornal por R$3 a R$5 a copia. As lan houses do interior do Brasil tambem rodavam o jogo. Versao com opcao de configurar graficos, muito popular em maquinas da epoca com placas de video medianas.

GBA

Game Boy Advance (Experiencia Completamente Diferente)

A versao de GBA era um jogo 2D totalmente distinto, desenvolvido pela Ubisoft Paris separadamente. Guardava o espirito do original de 1989, com gameplay lateral e acrobacia em perspectiva plana. No Brasil o GBA tinha boa presenca e alguns gamers jogaram as duas versoes como experiencias complementares.

Era a primeira vez que eu joguei um jogo e senti que estava assistindo a um filme persa de aventura feito especialmente pra mim. O Principe falava, a Farah tinha personalidade, e o mundo tinha uma coerencia visual que eu nunca tinha visto no PS2.

Depoimento coletado para o CheckPointed, 2025

A Imprensa Brasileira e o Jogo

As revistas de videogame brasileiras de 2003 e 2004 foram unanimes em elogiar Sands of Time. A GamePower, a EGM Brasil e a PlayStation Magazine, as tres publicacoes mais influentes do setor na epoca, deram notas maximas ou proximas disso. Era raro ver esse nivel de consenso na imprensa especializada nacional.

A GamePower, que em 2003 ainda era uma das revistas de maior circulacao do segmento, dedicou uma materia de capa para o jogo na edicao de dezembro de 2003 com o titulo “O Retorno do Principe”. A reportagem descrevia a historia da franquia desde o original de 1989 e concluia que a Ubisoft havia feito algo “historico para o genero”.

O impacto cultural foi alem das revistas. Em foruns como o antigo Flogao e nos primeiros grupos do Orkut dedicados a videogame, Sands of Time era um topico recorrente. Gamers brasileiros discutiam a mecanica de rebobinar o tempo como se fosse uma filosofia. Era aquele tipo de jogo que fazia voce querer contar para os outros o que tinha vivido.

Nas locadoras, o comportamento dos locatarios era incomum: a maioria terminava o jogo e logo em seguida alugava novamente para jogar de novo. O jogo nao tinha multiplayer, nao tinha modos extras, era uma experiencia de campanha linear e mesmo assim as pessoas voltavam.

Contexto Cultural

Por Que a Historia do Oriente Ressoou no Brasil de 2003

2003 foi um ano de grande interesse no Brasil por cultura persa e arabe por razoes que iam alem dos videogames. As Mil e Uma Noites estavam na programacao de algumas emissoras em novas adaptacoes, e o cinema iraniano vivia um momento de prestígio internacional que chegava ate as locadoras de filmes da classe media brasileira.

Sands of Time navegou nessa onda cultural com perfeicao. A estetica dos pacos, os tapetes dourados, os elementos do folclore persa na arquitetura dos niveis, e a voz narradora do Principe com seu sotaque britanico elegante criaram uma atmosfera que soava ao mesmo tempo exotica e familiar para o consumidor brasileiro de cultura pop da epoca.

Nao era so um jogo bom. Era um jogo que chegou na hora certa, no lugar certo, para uma audiencia que estava predisposta a se apaixonar por ele.

A Trilogia das Areias e o Mercado Brasileiro

O sucesso de Sands of Time garantiu dois seguimentos rapidos. Warrior Within chegou em novembro de 2004 com uma estetica drasticamente diferente: mais sombrio, mais violento, com uma trilha sonora de heavy metal que dividiu os fas. No Brasil o jogo foi bem recebido comercialmente mas gerou muito debate. Muitos gamers brasileiros preferiam o tom elegante do primeiro.

The Two Thrones, de 2005, foi a tentativa de equilibrar os dois estilos. Chegou ao Brasil no inicio de 2006 e teve uma recepcao mais positiva que Warrior Within, embora nenhum dos dois tenha atingido o nivel de impacto cultural do original.

O mercado de colecao brasileiro hoje reflete exatamente essa hierarquia afetiva. Uma copia CIB de Sands of Time para PS2 em bom estado custa entre R$80 e R$150 em 2026, enquanto Warrior Within e Two Thrones ficam na faixa de R$50 a R$90. A versao de GameCube do primeiro jogo, raríssima no Brasil, pode chegar a R$350 ou mais em versao CIB.

🏺 Dicas para o Colecionador
  • 🔍 Para PS2, verifique se a capa tem o logotipo “18+” do Ministerio da Justica brasileiro no verso. Copias com esse selo sao distribuicao nacional oficial e tem valor de colecao ligeiramente superior as importadas sem lacre.
  • 💿 O disco de PS2 deve ter o codigo SLES ou SLUS gravado no anel interno. Discos sem codigo ou com codigo diferente indicam copia pirata ou disco de locadora regravado.
  • 📦 A versao de GameCube com caixa original e manual em estado bom e a mais valorizada no Brasil. Pouquissimas unidades circularam oficialmente. Desconfie de precos abaixo de R$200 para CIB: provavelmente e uma reconstituicao com capa impressa.
  • 🎮 A versao de GBA e subestimada no mercado mas tem grande qualidade. Um cartucho original (sem manual) pode ser encontrado entre R$40 e R$70. O cartucho original tem o label brilhante; copias piratas costumam ter label fosco ou mal impresso.
  • 💰 Se voce quer montar a trilogia completa de PS2 com as tres caixas originais em bom estado, espere pagar entre R$200 e R$320 pela colecao. Um investimento justo dado o legado historico dos tres jogos juntos.
  • 📰 Revistas brasileiras da epoca com materias sobre o jogo, especialmente capas da GamePower e EGM Brasil de novembro-dezembro de 2003, sao itens de colecao interessantes para contextualizar a peca. Custam entre R$10 e R$30 em sebos e feiras.

Memorias dos Leitores

RS

“Lembro de alugar Sands of Time numa locadora em Campinas no verao de 2004 e nao sair do quarto ate terminar. Eram umas doze horas de jogo, acho. Quando eu rebobinei o tempo pela primeira vez e o jogo fez aquele efeito visual, eu literalmente soltei um grito. Nunca tinha visto isso antes.”

Rafael Souza, 37 anos — Campinas, SP
LM

“Minha irma mais velha que me apresentou o jogo. Ela falou: esse aqui e diferente, presta atencao na historia. E era verdade. A Farah era a melhor personagem feminina que eu ja tinha visto num jogo ate aquele momento. Tinha personalidade de verdade, nao era so decoracao.”

Luciana Menezes, 32 anos — Fortaleza, CE
PV

“Eu joguei na versao de PC com aquelas resolucoes horriveis de tela, porque nao tinhamos PS2 em casa naquela epoca. Mesmo assim o jogo era incrivel. Anos depois joguei no PS2 de um amigo e fiquei sem fala com a diferenca visual. Parecia outro jogo mas a magia era a mesma.”

Paulo Vieira, 41 anos — Belo Horizonte, MG

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