Guitar Hero III no Brasil: a febre das guitarrinhas, as lan houses e o disco que todo mundo queria ter
Guitar Hero III no Brasil
A febre das guitarrinhas, as lan houses lotadas e o disco que todo mundo queria ter. Como um jogo de PlayStation 2 transformou milhoes de brasileiros em “guitarristas” entre 2007 e 2010.
Era 2008, uma quinta-feira a tarde, e a lan house da sua cidade estava com fila. Nao era para Counter-Strike. Nao era para Ragnarok. Era para dois adolescentes brigando por qual das cinco “guitarras” plasticas disponivies estava menos desgastada. Guitar Hero III: Legends of Rock tinha chegado ao Brasil com alguns meses de atraso em relacao aos Estados Unidos, mas quando chegou, chegou com tudo.
A Activision e a Neversoft criaram algo raro: um jogo que nao precisava de manual, nao precisava de explicacao e atravessava qualquer barreira geracional. Quem nunca tinha tocado um videogame na vida pegava aquela guitarra plastica e em dez minutos estava suando tentando passar de “Easy” para “Medium” em “Welcome to the Jungle”. Era viciante de um jeito que poucos jogos conseguiram ser antes ou depois.
No Brasil, o fenomeno ganhou contornos proprios. O PS2 ainda dominava o mercado, as lan houses eram o centro social da juventude das cidades medias, e uma guitarra lacrada para PS2 chegava a custar mais do que o proprio console usado. Este e o retrato de uma febre que durou quase quatro anos e deixou marcas profundas na cultura gamer brasileira.
A Historia da Guitarrinha no Brasil
Guitar Hero Original: o esboço que ninguem viu
O primeiro Guitar Hero chegou ao PS2 nos Estados Unidos em outubro de 2005, desenvolvido pela Harmonix e publicado pela RedOctane. No Brasil, chegou de forma extremamente limitada, vendido em algumas poucas lojas de imports e importado via Mercado Livre por coleccionadores curiosos. O preco do bundle com a guitarra beirava R$ 280 em 2006, quando o salario minimo era R$ 350. Quase ninguem no pais conheceu essa fase. O jogo foi um sucesso nos EUA mas passou quase em branco por aqui.
Guitar Hero II: a Activision entra em cena
A Activision compra a RedOctane e assume o controle da franquia. Guitar Hero II chega ao PS2 em novembro de 2006 nos EUA com uma trilha expandida e modo co-op. No Brasil, comeca a aparecer com mais frequencia nas importadoras de Sao Paulo e nos camelodromos. O fenomeno ainda era de nicho, mas alguns donos de lan houses espertos comecam a comprar o kit americano para colocar nas maquinas. A guitarra plastica causa sensacao imediata em qualquer cliente que passa perto.
Guitar Hero III: a explosao global
Outubro de 2007. Guitar Hero III: Legends of Rock chega aos EUA com uma trilha que parecia feita para criar lenda: “Welcome to the Jungle” do Guns N Roses, “Sabotage” do Beastie Boys, “One” do Metallica e, nas fases finais, batalhas contra Slash e Lou Reed como personagens do jogo. A novidade da “guitarra batalla” vira noticia em todo site de games do planeta. O jogo e lancado para PS2, PS3, Xbox 360, Wii e ate PC. A Activision registra vendas de mais de 1 bilhao de dolares em poucos meses, o primeiro jogo individual da historia a cruzar essa marca.
O Brasil descobre a guitarrinha
Com alguns meses de atraso, o bundle do Guitar Hero III comeca a chegar ao Brasil de forma mais organizada, vendido nas grandes redes como Americanas, Ponto Frio e Fnac. O preco era proibitivo para a epoca: o bundle com o jogo e a guitarra custava em torno de R$ 350 a R$ 420 para PS2, em um pais onde o salario minimo era R$ 415. Mas as lan houses resolveram o problema de acesso. Com uma ou duas maquinas equipadas com a guitarra, os donos viram o tempo de permanencia dos clientes explodir. Nas cidades medias do interior, Guitar Hero III vira o principal atrativo.
A era de ouro nas lan houses brasileiras
O modelo de negocio era simples e lucrativo: cobrar R$ 2 a R$ 3 por sessao de 30 minutos na “maquina do Guitar Hero”. As filas se formavam especialmente nos finais de semana. Adolescentes decoravam as sequencias de botoes como se fossem tablatura de guitarra de verdade. Surgem os primeiros “pros” locais, capazes de passar pelo Expert de “Through the Fire and Flames” do DragonForce, a musica secreta desbloqueavel considerada a mais dificil do jogo. Quem conseguia era tratado como lenda na lan house.
O mercado de guitarras usadas e a saturacao
Com o Guitar Hero World Tour, Guitar Hero 5 e Rock Band chegando em sequencia, o mercado brasileiro comeca a ficar saturado. As guitarras de PS2 ficam mais baratas no Mercado Livre, chegando a R$ 80 ou R$ 100 usadas. Mas o interesse comeca a declinar. A franquia tinha lancado versoes demais em pouco tempo. Em 2011, a Activision fecha o estudio responsavel e encerra a linha principal. No Brasil, as guitarras vao parar nos armarios, viram decoracao de quarto de adolescente, ou aparecem em feiras de usados anos depois.
Duas Guitarras, Dois Mundos
Guitar Hero III: Legends of Rock (PS2)
O bundle que detonou a febre no Brasil. Capa iconica com a Les Paul negra sobre fundo roxo, trilha com 70+ musicas e o modo “Batalha de Guitarra”. Preco de lancamento em 2008: aproximadamente R$ 350 a R$ 420 com o controle guitarra incluso.
A Les Paul Wireless: o objeto de desejo
O controle modelado na Gibson Les Paul foi o grande diferencial. A versao wireless para PS3 e Xbox 360 custava uma fortuna no Brasil. A versao com fio para PS2 era mais acessivel e se tornou a favorita das lan houses. Muitas sobrevivem ate hoje com os botoes de cor desbotada pelo uso intenso.
As Musicas que Marcaram uma Geracao
A trilha do Guitar Hero III era um manual de rock para quem cresceu nos anos 2000. Algumas faixas viraram verdadeiros ritos de passagem nas lan houses brasileiras. Passar de certa musica em Expert era a prova de que voce nao era iniciante.
Through the Fire and Flames
DragonForce. A musica desbloqueavel secreta. Cinco minutos de speed metal em velocidade impossivel. Quem passava em Expert virava lenda instantanea. Provocava filas nas lan houses so para assistir.
Impossivel no ExpertWelcome to the Jungle
Guns N Roses. A musica de abertura do jogo completo, a primeira que a maioria dos brasileiros tocou. Intro inconfundivel. Virou sinonimo de Guitar Hero no Brasil entre 2008 e 2010.
Classico AbsolutoOne
Metallica. A musica que ensinava o que era progressao de dificuldade. Comecava tranquila e terminava frenética, exigindo resistencia para o solo final. Muita gente memorizou a letra por causa do jogo.
Muro do ExpertsRaining Blood
Slayer. A batalha contra Lou Reed (O Diabo) no jogo usava essa faixa. Brutal e sem misericordia no Expert. Muitos brasileiros conheceram o Slayer por causa do Guitar Hero.
Boss FinalSabotage
Beastie Boys. Uma das faixas mais divertidas do jogo. O ritmo hip-hop adaptado para guitarra surpreendia quem esperava so rock. Funcionava bem nas dificuldades medianas e era inclusiva para iniciantes.
Acessivel e ViciantePaint It Black
Rolling Stones. Uma das primeiras musicas que o jogador medio conseguia passar inteira no Medium. Virou a “musica de treino” de muita gente nas lan houses. Riff inicial memoravel e progressao honesta.
Porta de EntradaVoce nao precisava saber tocar guitarra de verdade. Voce so precisava sentir que era capaz de tocar. Esse era o segredo do Guitar Hero: vendia a sensacao, nao a tecnica.
Fenomeno Cultural 2007-2010Por Que o Brasil Abracou o Guitar Hero com Tanta Forca
O contexto brasileiro de 2008 era perfeito para o Guitar Hero III explodir. O PS2 ainda era a plataforma dominante no pais, e a Activision havia garantido que o jogo tivesse uma versao robusta para o console. Enquanto nos EUA o jogo ja estava migrando para PS3 e Xbox 360, no Brasil o PS2 era a realidade da grande maioria dos jogadores.
As lan houses funcionavam como um ecossistema de amplificacao cultural diferente de qualquer outro pais. Nos Estados Unidos, Guitar Hero era um jogo de sala de estar, comprado pela familia para jogar em casa. No Brasil, era uma experiencia coletiva e publica. Voce ia a lan house, pagava sua hora, e podia terminar jogando Guitar Hero ate de madrugada enquanto adolescentes do bairro inteiro assistiam.
Outro fator fundamental foi o preco. O salario minimo em 2008 era R$ 415. Um bundle completo do Guitar Hero III para PS2 custava entre R$ 350 e R$ 420 nas grandes redes. Era, na pratica, um mes de salario minimo para ter o jogo e a guitarra em casa. Isso transformou a lan house no unico ponto de acesso para a grande maioria dos jovens brasileiros, criando um modelo de consumo compartilhado que intensificou o fenomeno social em vez de diluir.
Nao era incomum ver, em 2009, um dono de lan house no interior de Sao Paulo ou Minas Gerais com quatro ou cinco guitarras de PS2 em rotacao, cobrando sessoes separadas para o Guitar Hero. O retorno sobre o investimento era rapido: uma guitarra usada a R$ 80 pagava a si mesma em dois finais de semana de movimento.
Para o Colecionador de Today: Dicas de Guitar Hero
Memorias da Guitarrinha
“A lan house do meu bairro tinha duas guitarras e eu ia todo sabado de manha pra pegar antes da fila. Passei seis meses tentando passar o ‘Through the Fire and Flames’ no Expert. Quando consegui, o dono da lan house parou tudo e todo mundo veio olhar.”
“Meu pai nunca tinha jogado videogame na vida. Ai chegou um Guitar Hero III na casa do meu tio no Natal de 2008. Em trinta minutos ele estava tocando ‘Paint It Black’ no Easy e sorrindo que nem crianca. Foi a primeira vez que vi meu pai jogar. Guitar Hero era assim, nao tinha barreira.”
“Trabalhei tres meses de ferias pra comprar o bundle do Guitar Hero III. Custou mais de R$ 400. Minha mae achou que eu tinha enlouquecido. Mas eu aprendi de verdade as escalas de guitarra por causa do jogo. Hoje tenho uma guitarra de verdade e comecei por causa do Guitar Hero. Nao me arrependo de nada.”
A Guitarrinha Ainda Toca
Seja num emulador, num PS2 que sobreviveu ao tempo, ou na memoria afetiva de uma lan house que ja nao existe mais, Guitar Hero III e um capitulo permanente da historia gamer brasileira.
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